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Na era da IA, a vantagem competitiva virá do Gemba.

  • agosto 31, 2026

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Durante a última década, consolidou-se no discurso empresarial a ideia de que dados seriam o novo petróleo. A metáfora ajudou empresas a compreender o valor econômico da informação, mas criou uma interpretação perigosa, a de que acumular grandes volumes de dados produziria, por si só, vantagem competitiva. A teoria dos recursos já indicava que possuir um ativo não basta. Para sustentar desempenho superior, ele precisa ser valioso, raro, difícil de imitar e difícil de substituir.

A inteligência artificial generativa começa a alterar profundamente essa equação. Modelos fundacionais oferecem a milhares de organizações capacidades semelhantes de análise, síntese, programação, pesquisa e resolução de problemas. Quanto mais modelos, infraestrutura computacional e técnicas de implementação se difundem, maior a tendência de parte dessa inteligência se transformar em infraestrutura disponível para todos, reduzindo seu potencial de diferenciação isolada.

Isso não significa que dados proprietários tenham perdido importância. Informações exclusivas sobre clientes, processos, equipamentos, produtos e transações podem elevar significativamente a qualidade de sistemas analíticos e aplicações de inteligência artificial. O problema está em assumir que a exclusividade do dado será suficiente para produzir uma vantagem sustentável. Concorrentes podem encontrar fontes alternativas, produzir dados sintéticos, inferir comportamentos ou utilizar modelos cada vez melhores para reduzir parte dessa assimetria.

A vantagem competitiva tende, portanto, a migrar do simples acesso à informação para a capacidade de interpretar a realidade de maneira diferente. Duas organizações podem possuir praticamente os mesmos indicadores, acessar as mesmas pesquisas, conversar com perfis semelhantes de clientes e utilizar modelos de inteligência artificial comparáveis. Mesmo assim, podem chegar a conclusões completamente diferentes, porque conhecimento organizacional não depende apenas da informação disponível, mas da forma como experiência, contexto e modelos mentais são combinados para produzir significado.

É nesse ponto que surge a observação proprietária. Trata-se de perceber um fenômeno que outros participantes do mercado ainda não perceberam ou consideraram relevante. Pode ser uma reclamação recorrente, uma improvisação criada por operadores, uma utilização inesperada de um produto, um comportamento aparentemente irracional de clientes ou uma exceção persistente em determinado processo. Muitas dessas informações estavam disponíveis o tempo inteiro. O diferencial estava em decidir observá-las.

A Intuit oferece um exemplo particularmente interessante. A empresa institucionalizou uma prática chamada Follow Me Home, na qual profissionais acompanham clientes em seus ambientes reais para observar como trabalham, quais dificuldades encontram e como contornam problemas. A própria Intuit descreve que a técnica busca observar comportamento real em vez de depender exclusivamente do que clientes dizem em entrevistas. O método parte de uma ideia simples. Há informações estratégicas que dificilmente aparecem em dashboards porque ninguém sabia previamente que deveria medi-las.

Na Índia, essa lógica foi aplicada em escala. Antes do lançamento de uma solução voltada a pequenos negócios, a Intuit realizou quase três mil visitas Follow Me Home com consumidores e empreendedores para compreender comportamentos, necessidades e dificuldades locais. Essas observações contribuíram para o desenvolvimento do GoConnect, uma solução de marketing móvel para pequenos negócios. A empresa não estava apenas coletando mais registros em uma base de dados. Estava construindo contexto proprietário a partir da observação direta de como as pessoas realmente trabalhavam.

A Toyota oferece outra manifestação da mesma lógica. O princípio Genchi Genbutsu estabelece que fatos relevantes devem ser compreendidos no local onde o trabalho ocorre. A empresa associa esse princípio às suas práticas de qualidade e melhoria desde sua formação e o utiliza inclusive em avaliações realizadas a partir da perspectiva do cliente. A informação registrada em um indicador continua importante, mas não substitui a observação direta do processo que produziu aquele indicador.

Os dois exemplos revelam uma distinção fundamental. Dado registra um fenômeno. Informação organiza esse registro. Observação identifica algo potencialmente relevante. Percepção atribui significado ao que foi observado. Insight conecta essa percepção a uma hipótese. Decisão transforma a hipótese em escolha. A criação de conhecimento ocorre justamente quando informação explícita se combina com conhecimento tácito, experiência e contexto organizacional.

A inteligência artificial comprime violentamente as primeiras etapas dessa cadeia. Classificar documentos, identificar padrões, resumir milhares de páginas, comparar cenários e gerar hipóteses tornou-se muito mais rápido. Experimentos controlados já identificaram ganhos significativos de produtividade em tarefas cognitivas realizadas com apoio de inteligência artificial generativa. Quanto mais essa capacidade estiver disponível para todos, porém, menor será o diferencial de simplesmente possuir a ferramenta.

Isso produz uma consequência estratégica importante. A vantagem pode estar antes do prompt. Engenharia de prompt ajuda a extrair desempenho dos modelos, mas prompts podem ser copiados, templates podem ser compartilhados e técnicas podem ser incorporadas aos próprios sistemas. Saber qual pergunta fazer depende de algo anterior. É necessário perceber uma anomalia, uma oportunidade, uma tensão ou uma possibilidade que ainda não foi formalizada. Essa capacidade depende de repertório, experiência e conhecimento tácito, elementos notoriamente difíceis de codificar integralmente.

Empresas deveriam, portanto, pensar em infraestrutura de observação com a mesma seriedade com que pensam em infraestrutura de dados. Gemba, pesquisa etnográfica, entrevistas, acompanhamento de jornadas, análise de reclamações, observação de exceções, experimentação e contato da liderança com operações e clientes são mecanismos de produção de contexto proprietário. A Toyota institucionalizou o Genchi Genbutsu justamente como forma de estabelecer os fatos por meio da experiência no local, enquanto a Intuit transformou a observação do cliente em uma competência organizacional de inovação.

Isso também muda o papel do especialista. Quando respostas factuais, análises preliminares e conhecimento explícito podem ser obtidos quase instantaneamente, o valor do profissional deixa de estar apenas na quantidade de informação que consegue memorizar. Passa a estar na capacidade de perceber padrões relevantes, contestar premissas, formular problemas, conectar fenômenos aparentemente independentes e reconhecer quando uma resposta tecnicamente correta está sendo aplicada ao problema errado. Estudos sobre expertise mostram que especialistas se distinguem justamente pela maneira como estruturam problemas e reconhecem padrões em seus domínios de conhecimento.

A organização competitiva na era da inteligência artificial provavelmente será aquela capaz de criar um ciclo contínuo de observação, percepção, hipótese, experimentação e aprendizagem. Ela observa a realidade, percebe uma mudança, utiliza dados e inteligência artificial para aprofundar a investigação, testa uma intervenção e incorpora o aprendizado ao seu sistema de gestão. Esse mecanismo se aproxima diretamente do conceito de capacidades dinâmicas, segundo o qual organizações precisam perceber oportunidades e ameaças, mobilizar recursos e transformar continuamente suas capacidades diante de mudanças ambientais.

A próxima vantagem competitiva talvez não esteja, portanto, em possuir informações que ninguém possui. Estará em perceber algo que ninguém percebeu. Dados continuarão essenciais e a inteligência artificial continuará ampliando dramaticamente nossa capacidade de analisá-los, mas ambas as capacidades tendem a se difundir. O recurso escasso passa a ser a percepção proprietária, a capacidade de observar um fenômeno aparentemente comum, atribuir a ele um significado incomum e agir antes que os concorrentes façam a mesma interpretação. Na era da inteligência artificial, o diferencial não será apenas ter mais dados. Será enxergar melhor.

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Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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