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Treinamento concluído não é aprendizado completo.

  • maio 7, 2026

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Durante muito tempo, a educação corporativa foi medida por um indicador simples: cursos concluídos. Mas esse modelo começa a mostrar seus limites.

Com base na nossa experiência, o que vemos atualmente é que o aprendizado nas empresas não acontece em eventos isolados, mas como um processo contínuo, integrado ao trabalho. E é justamente aí que muitos programas falham.

A métrica de conclusão de treinamentos sempre foi conveniente. Fácil de mensurar, simples de reportar, alinhada a sistemas de LMS. O problema é que conveniência não é sinônimo de eficácia. Estudos clássicos de retenção mostram que, sem aplicação prática, até 70% do conteúdo aprendido é esquecido em poucos dias (Ebbinghaus, 1885; Murre e Dros, 2015). A conclusão do curso, portanto, mede exposição, não transformação.

O segundo ponto é estrutural. O modelo tradicional separa aprendizado e trabalho, como se fossem domínios distintos. Na prática, desempenho é função da capacidade de aplicar conhecimento no contexto real. Pesquisas sobre aprendizagem no trabalho indicam que cerca de 70% do desenvolvimento ocorre por meio de experiências práticas, 20% por interação social e apenas 10% por treinamentos formais (Lombardo e Eichinger, 1996). Quando o desenho do programa ignora essa dinâmica, cria-se um hiato entre saber e fazer.

Há ainda um erro de design organizacional. Programas de treinamento são frequentemente tratados como iniciativas pontuais, sem conexão com metas operacionais, indicadores de negócio ou rotinas de gestão. Sem integração com o fluxo de trabalho, o aprendizado não gera reforço, não é testado e não evolui. Modelos mais recentes de learning in the flow of work mostram que a aprendizagem contínua, contextual e orientada a problemas reais aumenta significativamente a transferência de conhecimento para o desempenho (Bersin, 2018).

Outro fator crítico é a ausência de mecanismos de sustentação. Sem ciclos estruturados de prática, feedback e ajuste, o aprendizado não se consolida. Frameworks como PDCA e DMAIC demonstram que a repetição orientada por dados é o que transforma conhecimento em competência (Deming, 1986; Montgomery, 2019). Treinamentos que não incorporam esses ciclos tendem a gerar picos de engajamento seguidos de rápida dissipação.

Por fim, a evolução tecnológica expõe ainda mais essa limitação. Com IA e copilotos, o acesso à informação deixou de ser o gargalo. O diferencial passou a ser a capacidade de formular problemas, aplicar conceitos e iterar soluções no contexto real. Isso desloca o foco de “saber” para “saber fazer com consistência”, reforçando a inadequação de métricas baseadas apenas em conclusão.

Treinamento concluído é um marco administrativo, não um indicador de aprendizado. Organizações que continuam operando com essa lógica medem atividade, não resultado.

O aprendizado efetivo exige integração com o trabalho, prática deliberada, ciclos contínuos de melhoria e conexão direta com indicadores de negócio. Isso implica redesenhar programas de desenvolvimento como sistemas vivos, e não como eventos.

A consequência é clara. Empresas que fazem essa transição transformam aprendizado em performance. As que não fazem continuam acumulando certificados e desperdiçando potencial.

Referências

  • Ebbinghaus, H. Memory: A Contribution to Experimental Psychology, 1885.
  • Murre, J. M. J.; Dros, J. Replication and Analysis of Ebbinghaus’ Forgetting Curve, 2015.
  • Lombardo, M.; Eichinger, R. The Career Architect Development Planner, 1996.
  • Bersin, J. Learning in the Flow of Work, Deloitte Insights, 2018.
  • Deming, W. E. Out of the Crisis, 1986.
  • Montgomery, D. C. Introduction to Statistical Quality Control, 2019.
  • Brynjolfsson, E.; McAfee, A. The Second Machine Age, 2014.
  • Davenport, T. H.; Ronanki, R. Artificial Intelligence for the Real World, Harvard Business Review, 2018.

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Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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