Durante muito tempo, a educação corporativa foi medida por um indicador simples: cursos concluídos. Mas esse modelo começa a mostrar seus limites.
Com base na nossa experiência, o que vemos atualmente é que o aprendizado nas empresas não acontece em eventos isolados, mas como um processo contínuo, integrado ao trabalho. E é justamente aí que muitos programas falham.
A métrica de conclusão de treinamentos sempre foi conveniente. Fácil de mensurar, simples de reportar, alinhada a sistemas de LMS. O problema é que conveniência não é sinônimo de eficácia. Estudos clássicos de retenção mostram que, sem aplicação prática, até 70% do conteúdo aprendido é esquecido em poucos dias (Ebbinghaus, 1885; Murre e Dros, 2015). A conclusão do curso, portanto, mede exposição, não transformação.
O segundo ponto é estrutural. O modelo tradicional separa aprendizado e trabalho, como se fossem domínios distintos. Na prática, desempenho é função da capacidade de aplicar conhecimento no contexto real. Pesquisas sobre aprendizagem no trabalho indicam que cerca de 70% do desenvolvimento ocorre por meio de experiências práticas, 20% por interação social e apenas 10% por treinamentos formais (Lombardo e Eichinger, 1996). Quando o desenho do programa ignora essa dinâmica, cria-se um hiato entre saber e fazer.
Há ainda um erro de design organizacional. Programas de treinamento são frequentemente tratados como iniciativas pontuais, sem conexão com metas operacionais, indicadores de negócio ou rotinas de gestão. Sem integração com o fluxo de trabalho, o aprendizado não gera reforço, não é testado e não evolui. Modelos mais recentes de learning in the flow of work mostram que a aprendizagem contínua, contextual e orientada a problemas reais aumenta significativamente a transferência de conhecimento para o desempenho (Bersin, 2018).
Outro fator crítico é a ausência de mecanismos de sustentação. Sem ciclos estruturados de prática, feedback e ajuste, o aprendizado não se consolida. Frameworks como PDCA e DMAIC demonstram que a repetição orientada por dados é o que transforma conhecimento em competência (Deming, 1986; Montgomery, 2019). Treinamentos que não incorporam esses ciclos tendem a gerar picos de engajamento seguidos de rápida dissipação.
Por fim, a evolução tecnológica expõe ainda mais essa limitação. Com IA e copilotos, o acesso à informação deixou de ser o gargalo. O diferencial passou a ser a capacidade de formular problemas, aplicar conceitos e iterar soluções no contexto real. Isso desloca o foco de “saber” para “saber fazer com consistência”, reforçando a inadequação de métricas baseadas apenas em conclusão.
Treinamento concluído é um marco administrativo, não um indicador de aprendizado. Organizações que continuam operando com essa lógica medem atividade, não resultado.
O aprendizado efetivo exige integração com o trabalho, prática deliberada, ciclos contínuos de melhoria e conexão direta com indicadores de negócio. Isso implica redesenhar programas de desenvolvimento como sistemas vivos, e não como eventos.
A consequência é clara. Empresas que fazem essa transição transformam aprendizado em performance. As que não fazem continuam acumulando certificados e desperdiçando potencial.
Referências
- Ebbinghaus, H. Memory: A Contribution to Experimental Psychology, 1885.
- Murre, J. M. J.; Dros, J. Replication and Analysis of Ebbinghaus’ Forgetting Curve, 2015.
- Lombardo, M.; Eichinger, R. The Career Architect Development Planner, 1996.
- Bersin, J. Learning in the Flow of Work, Deloitte Insights, 2018.
- Deming, W. E. Out of the Crisis, 1986.
- Montgomery, D. C. Introduction to Statistical Quality Control, 2019.
- Brynjolfsson, E.; McAfee, A. The Second Machine Age, 2014.
- Davenport, T. H.; Ronanki, R. Artificial Intelligence for the Real World, Harvard Business Review, 2018.