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Transição elétrica desacelera e montadoras revisam estratégia após prejuízos bilionários

  • março 25, 2026

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A indústria automotiva global entrou em um período de correção estratégica após anos de investimentos agressivos na eletrificação. O que parecia uma mudança rápida e inevitável passou a mostrar limites econômicos, industriais e de demanda. Cancelamentos de projetos, revisões de portfólio e perdas financeiras relevantes indicam que várias montadoras superestimaram a velocidade da transição para veículos elétricos. O movimento atual não representa abandono da eletrificação, mas um ajuste para um cenário mais lento e mais complexo do que o previsto.

Em março de 2026, a Honda cancelou o desenvolvimento de três modelos elétricos que seriam produzidos nos Estados Unidos, incluindo um SUV da linha 0 Series, um sedã da mesma plataforma e o Acura RSX elétrico. O impacto estimado com os cancelamentos chega a aproximadamente US$ 15,7 bilhões, considerando investimentos já realizados em engenharia, adaptação de fábricas e contratos com fornecedores. A decisão reflete a revisão das projeções de demanda e o aumento dos custos industriais, especialmente ligados a baterias, logística e infraestrutura de carregamento.

A Stellantis vive situação ainda mais sensível após acelerar sua estratégia de eletrificação nos últimos anos. O grupo, que reúne marcas como Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e RAM, registrou prejuízo de 22,3 bilhões de euros em 2025, revertendo um lucro de 5,5 bilhões no ano anterior. Em 2023, o resultado havia sido significativamente maior, o que mostra a rapidez da deterioração financeira. O principal fator apontado internamente foi o volume de investimentos em plataformas elétricas combinado com desaceleração das vendas em mercados importantes.

Diante desse cenário, a empresa iniciou uma revisão de decisões estratégicas tomadas durante o período de maior pressão regulatória por eletrificação. A Stellantis voltou a investir em motores a combustão em alguns mercados, ampliou o foco em híbridos leves na Europa e retomou o motor V8 HEMI na América do Norte, que havia sido descontinuado como parte do plano de eletrificação. A mudança mostra que a transição energética está ocorrendo de forma menos linear do que se imaginava, exigindo maior flexibilidade tecnológica.

O impacto dessas decisões também aparece no mercado financeiro. As ações da Stellantis caíram cerca de 50% em um ano, atingindo o menor nível desde a fusão que criou o grupo. A queda reflete não apenas os resultados recentes, mas a incerteza sobre o retorno dos investimentos feitos na eletrificação. Para muitas montadoras, a rentabilidade dos veículos elétricos ainda é inferior à dos modelos a combustão, principalmente por causa do custo das baterias e da necessidade de escala para reduzir preços.

Outro ponto que se tornou evidente é a diferença entre mercados. A adoção de veículos elétricos cresce de forma desigual entre regiões. Em países com forte incentivo governamental e cadeia de produção integrada, a transição avança mais rápido. Em mercados onde o custo é mais alto e a infraestrutura é limitada, a demanda cresce de forma mais lenta, o que dificulta o planejamento global das montadoras.

O comportamento do consumidor também tem influenciado as decisões. Parte do público continua preferindo híbridos ou motores a combustão mais eficientes, especialmente quando o preço do elétrico permanece elevado. Isso cria um descompasso entre as metas anunciadas pelas empresas e a realidade das vendas, obrigando as fabricantes a rever cronogramas e investimentos.

O erro estratégico não foi investir em eletrificação, mas assumir que a mudança ocorreria em um ritmo mais rápido do que a capacidade industrial e o mercado permitiriam. A indústria automotiva trabalha com ciclos longos, alto custo de capital e cadeias de suprimento complexas. Quando a demanda não acompanha o planejamento, o impacto financeiro aparece rapidamente.

O que se observa agora é uma fase mais pragmática. Em vez de substituir completamente o motor a combustão em curto prazo, as montadoras passam a trabalhar com portfólios mistos, combinando elétricos, híbridos e motores tradicionais. Essa abordagem reduz risco, melhora a rentabilidade e permite adaptação gradual ao comportamento do mercado.

Para países emergentes, o cenário reforça que a transição dependerá não apenas de tecnologia, mas de custo, infraestrutura e política industrial. Sem esses fatores, a eletrificação tende a avançar mais lentamente, o que explica por que várias fabricantes estão ajustando seus planos globais para realidades regionais diferentes.

O momento atual não marca o fim dos veículos elétricos, mas o fim da fase de entusiasmo sem restrições econômicas. A indústria entra em um período de ajuste, no qual estratégia, engenharia e demanda precisam voltar a caminhar juntas. Em transformações tecnológicas de grande escala, esse tipo de correção é comum e costuma separar empresas que seguiram apenas a narrativa das que conseguem executar com disciplina.

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Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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