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O SUS nasceu para um Brasil jovem e precisa evoluir para o envelhecimento da população

  • setembro 14, 2026

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O SUS nasceu no fim dos anos 1980 como uma das maiores conquistas sociais da redemocratização. A Constituição de 1988 transformou a saúde em direito de todos e dever do Estado. Até então, o acesso regular à assistência pública estava ligado à Previdência Social e alcançava cerca de 30 milhões de trabalhadores. O restante da população dependia de instituições filantrópicas, serviços locais ou pagamento direto (Ministério da Saúde, 2026).

O sistema não foi criado para atender apenas pessoas jovens. Foi criado para ser universal. Mas surgiu em um Brasil jovem, com outra estrutura familiar, outro perfil de doenças e outra expectativa de vida.

Em 1980, 38,2% dos brasileiros tinham até 14 anos e somente 4% tinham 65 anos ou mais. Em 2022, as pessoas com 60 anos ou mais já representavam 15,8% da população. O número de brasileiros com pelo menos 65 anos cresceu 57,4% em apenas doze anos, entre 2010 e 2022 (IBGE, 2023; IBGE, 2024).

A mudança ainda está longe de terminar. O IBGE projeta que a população brasileira atingirá seu ponto máximo em 2041 e começará a diminuir. Em 2070, 37,8% dos habitantes terão 60 anos ou mais. O país terá menos crianças, menos adultos em idade produtiva e mais pessoas vivendo por décadas após os 60 anos (IBGE, 2024).

Os princípios do SUS continuam corretos. Universalidade, integralidade e equidade ganham relevância em uma sociedade envelhecida. O problema está no modelo operacional, ainda muito dependente de consultas isoladas, especialidades, hospitais e procedimentos. O Brasil mudou mais depressa do que sua arquitetura de cuidado.

Envelhecer muda o tipo de demanda

Uma população jovem demanda vacinação, atenção materno-infantil, tratamento de infecções, traumas e intervenções pontuais. Uma população mais velha precisa de acompanhamento por anos, controle simultâneo de várias doenças, revisão de medicamentos, prevenção de quedas, reabilitação, atenção domiciliar, cuidado paliativo e suporte à perda de autonomia.

As doenças e agravos não transmissíveis responderam por 54,7% dos óbitos registrados no Brasil em 2019. As doenças crônicas não transmissíveis provocam mais de 700 mil mortes por ano no país (Ministério da Saúde, 2021; Ministério da Saúde, 2023). Entre as pessoas idosas, cerca de 28% sofrem ao menos uma queda por ano, o equivalente a aproximadamente 9 milhões de ocorrências anuais (Ministério da Saúde, 2026).

Esse paciente não chega ao SUS com um problema único. Ele pode conviver com diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca, artrose, déficit cognitivo e vulnerabilidade social. Passa pela unidade básica, pelo cardiologista, pelo ortopedista, pela emergência e pela farmácia. Cada serviço cuida de uma parte. Poucos coordenam o conjunto.

Quando ninguém gerencia a trajetória completa, a família assume essa função. Ela organiza consultas, transporta o paciente, administra prescrições, interpreta orientações diferentes e tenta perceber uma piora antes que se transforme em emergência. A fragmentação do sistema reaparece como sobrecarga dentro de casa.

O hospital não pode ser a porta final do cuidado social

O envelhecimento aumenta a frequência das internações e o uso de tecnologias médicas. A pressão maior, porém, aparece no cuidado continuado. Depois de um acidente vascular cerebral, uma fratura, uma descompensação cardíaca ou uma internação prolongada, muitas pessoas não precisam permanecer no hospital. Precisam de reabilitação, adaptação domiciliar, supervisão de medicamentos e apoio nas atividades diárias.

O Brasil ainda oferece pouco dessa retaguarda. Em 2019, os cuidados de longa duração receberam apenas 1,3% dos R$ 277,4 bilhões de despesas assistenciais do SUS, cerca de R$ 3,6 bilhões. Somente 36% dos municípios possuíam instituições de longa permanência, em sua maioria privadas. O governo federal estimou uma pressão adicional acumulada de R$ 67,2 bilhões sobre os gastos de saúde entre 2024 e 2034 em razão do envelhecimento populacional (Ipea, 2025).

Sem atenção domiciliar, centros-dia, reabilitação, cuidado paliativo e suporte comunitário, o hospital vira cuidador de última instância. Leitos de alta complexidade permanecem ocupados por pacientes que já não precisam daquela estrutura, mas não possuem condições seguras para voltar para casa. A emergência recebe casos que poderiam ter sido identificados antes pela atenção primária. O sistema paga mais e entrega uma experiência pior.

A família brasileira também mudou

Durante décadas, o país tratou o cuidado de pessoas dependentes como uma responsabilidade privada das famílias. Na prática, as mulheres assumiram a maior parte desse trabalho. Famílias menores, maior participação feminina no mercado de trabalho, separação geográfica entre parentes e aumento do número de pessoas muito idosas reduziram a disponibilidade de cuidadores informais (Ipea, 2025).

Essa transformação tem impacto econômico. Um familiar reduz a jornada, deixa o emprego ou acumula trabalho remunerado e cuidado doméstico. Quando a renda permite, a família contrata apoio particular. Quando não permite, convive com exaustão, improviso e risco assistencial.

A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069 de 2024, reconheceu o cuidado como direito e estabeleceu responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, sociedade e setor privado. A lei também determinou integração entre políticas públicas e articulação entre os entes federativos (Brasil, 2024). O marco jurídico existe. O desafio agora está em transformá-lo em serviços acessíveis, critérios de elegibilidade, financiamento e capacidade operacional nos territórios.

Gastar mais sem mudar o modelo não resolverá

Em 2024, a despesa do governo geral brasileiro com saúde alcançou 5,03% do PIB, ante 4,72% em 2023. Os serviços hospitalares representaram a principal subfunção e concentraram parte relevante do crescimento do gasto (Ministério do Planejamento e Orçamento, 2025).

O envelhecimento exigirá mais recursos. Mas a simples expansão do orçamento preservaria as distorções se o dinheiro continuar concentrado na resposta tardia e hospitalar. O país precisa financiar prevenção, coordenação e cuidado continuado com a mesma disciplina usada para remunerar consultas, exames e internações.

Controlar hipertensão e diabetes, revisar prescrições, prevenir quedas, vacinar adultos, recuperar mobilidade e acompanhar o paciente depois da alta não elimina o custo de envelhecer. Essas ações retardam a fragilidade, evitam complicações e deslocam parte da demanda para ambientes menos intensivos.

A Organização Mundial da Saúde propõe essa mudança por meio do modelo ICOPE. A abordagem orienta os sistemas de saúde a avaliar mobilidade, cognição, nutrição, visão, audição, humor e condições sociais. A equipe usa essas informações para construir um plano individual, preservar a capacidade funcional e coordenar o cuidado entre profissionais e serviços (OMS, 2025).

O Ministério da Saúde já adota a capacidade funcional como referência para a linha de cuidado da pessoa idosa. A diretriz recomenda avaliação multidimensional, plano coordenado e acompanhamento de curto, médio e longo prazo (Ministério da Saúde, 2026). Falta transformar a orientação em rotina de escala nacional.

O que precisa mudar?

O primeiro movimento consiste em trocar o atendimento episódico pela gestão longitudinal. Cada pessoa idosa precisa ter uma equipe de referência, avaliação periódica de fragilidade e um plano conhecido pelos diferentes pontos da rede. Casos complexos precisam de um responsável pela coordenação.

O segundo movimento desloca o centro de gravidade do hospital para a atenção primária, o domicílio e a comunidade. A unidade básica deve identificar o risco antes da crise, acompanhar a perda de funcionalidade e acionar reabilitação, assistência social ou atenção especializada no momento adequado.

O terceiro integra SUS e SUAS. Dependência funcional envolve saúde, renda, moradia, alimentação, mobilidade, proteção e apoio ao cuidador. Nenhum desses sistemas consegue responder sozinho ao problema estabelecido pela Política Nacional de Cuidados (Brasil, 2024).

O quarto movimento muda a formação profissional. Médicos, enfermeiros, agentes comunitários, fisioterapeutas, farmacêuticos, nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais precisam dominar fragilidade, demências, polifarmácia, prevenção de quedas, reabilitação e cuidados paliativos. A escassez de geriatras impede uma estratégia baseada somente em especialistas (Ipea, 2025).

O quinto movimento altera indicadores e incentivos. O SUS mede consultas, exames, procedimentos e internações. Uma rede orientada ao envelhecimento também precisa medir capacidade funcional, quedas, reinternações evitáveis, continuidade após a alta, uso seguro de medicamentos, sobrecarga do cuidador e permanência segura no domicílio. O pagamento deve considerar a complexidade da população atendida e os resultados produzidos ao longo do tempo, em coerência com o cuidado integrado defendido pela OMS (OMS, 2025).

Conclusão

O SUS permitiu que milhões de brasileiros vivessem mais. Agora precisa cuidar das consequências positivas dessa conquista.

O país saiu de uma estrutura etária com 38,2% de crianças e 4% de pessoas com 65 anos ou mais, em 1980, para uma trajetória na qual quase quatro em cada dez habitantes terão 60 anos ou mais em 2070 (IBGE, 2024). Essa transição já aparece nas unidades básicas, nas emergências, nos hospitais e dentro das casas.

O desafio não será resolvido apenas com mais leitos, consultas ou medicamentos. O SUS precisa passar de um sistema que responde a eventos para um sistema que acompanha trajetórias. Precisa preservar autonomia, retardar a fragilidade, coordenar condições crônicas e oferecer cuidado digno quando a independência diminui.

Sem essa evolução, o envelhecimento aparecerá na forma de filas, reinternações, famílias exauridas e pressão fiscal. Com uma rede integrada, o país poderá converter longevidade em anos vividos com mais autonomia, segurança e participação social. Esse é o novo pacto que a demografia exige do SUS.

Referências:

Brasil. Lei nº 15.069, de 23 de dezembro de 2024. Institui a Política Nacional de Cuidados.

IBGE. Censo Demográfico 2022. População por idade e sexo. 2023.

IBGE. Projeções da População do Brasil e Unidades da Federação, revisão 2024.

Ipea. Políticas Sociais, acompanhamento e análise, nº 32. Capítulo Saúde. 2025.

Ministério da Saúde. Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, 2021 a 2030.

Ministério da Saúde. Saúde da Pessoa Idosa e Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa.

Ministério do Planejamento e Orçamento. Despesa por Função do Governo Geral, resultados de 2024. 2025.

Organização Mundial da Saúde. Integrated Care for Older People, ICOPE. 2025.

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Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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