A suspensão determinada pela Anvisa para a fabricação de produtos de limpeza da Unilever em Vinhedo (SP) traz uma reflexão importante para quem trabalha com sistemas de gestão: ter um sistema estruturado não significa que os processos estarão sempre sob controle, mas que a organização deve ser capaz de identificar problemas, tratá-los e evitar sua recorrência.
Entre 24 e 28 de agosto de 2026, a Anvisa, em conjunto com as vigilâncias sanitárias estadual e municipal, inspecionou a fábrica responsável por produtos de marcas como OMO e Brilhante. Segundo a Agência, foram encontradas falhas nos controles durante a fabricação e antes da liberação dos produtos, deficiências no monitoramento da água utilizada no processo produtivo e fragilidades na investigação e correção de problemas identificados pela própria empresa.
A medida foi preventiva. A Anvisa informou que não foram encontradas evidências de contaminação microbiológica ou outros problemas nos lotes já produzidos e, por isso, não determinou seu recolhimento.
A unidade de Vinhedo trabalha com sistemas de gestão baseados nas ISO 9001 e ISO 14001 desde 1999. Referências atuais da própria empresa continuam relacionando as duas normas às atividades e auditorias do Sistema de Gestão da fábrica.
Ou seja: estamos falando de uma organização com mais de 25 anos de experiência com sistemas estruturados de gestão.
Então, como isso acontece?
Porque sistema de gestão não é garantia de ausência de problemas.
A ISO 9001 estabelece requisitos para controlar processos, monitorar resultados, identificar não conformidades, investigar causas e implementar ações corretivas. A ISO 14001 traz o mesmo raciocínio sistêmico para a gestão ambiental.
O ponto interessante do caso é justamente a natureza das falhas apontadas pela Anvisa: controle de processo, monitoramento, investigação e tratamento de problemas.
Não são assuntos distantes de um sistema de gestão. Estão no seu coração.
E existe outro risco em sistemas muito maduros: acostumar-se com o que sempre foi feito.
Depois de anos realizando as mesmas rotinas e auditando os mesmos processos, determinadas fragilidades podem simplesmente deixar de chamar a atenção. Não necessariamente porque sejam desconhecidas, mas porque algumas situações acabam sendo naturalizadas.
É justamente aí que auditorias internas realizadas por auditores externos podem fazer diferença. Um profissional independente traz outro repertório, compara práticas entre organizações, questiona situações que internamente podem ter se tornado parte da rotina e reduz o risco do chamado “olhar viciado”.
Na Setec, realizamos auditorias internas com auditores externos justamente com esse objetivo: não apenas verificar conformidade, mas encontrar fragilidades antes que o cliente, o organismo certificador ou o órgão regulador as encontre.
E por que uma auditoria de certificação pode não encontrar esses problemas?
Primeiro, porque toda auditoria trabalha por amostragem. O auditor não verifica cada produto, cada registro, cada turno e cada ocorrência. Portanto, uma auditoria, por melhor que seja, não garante que todos os problemas existentes serão identificados.
Mas existe também uma diferença importante de propósito.
A auditoria interna deve querer encontrar problemas.
Quanto mais cedo encontrar uma fragilidade, melhor. A organização poderá corrigi-la antes que ela chegue ao cliente ou seja identificada por um órgão regulador ou organismo certificador.
Já na auditoria de certificação, o objetivo é avaliar, por amostragem, se o sistema atende aos requisitos da norma. E, naturalmente, a organização está naquele momento demonstrando a conformidade e a eficácia de seu sistema.
Por isso, auditoria interna não deveria ser um ensaio para passar na auditoria externa.
Ela deveria ser exatamente o contrário: o momento de procurar aquilo que ninguém gostaria que o cliente, a Anvisa ou o auditor do organismo certificador encontrasse.
Talvez essa seja a principal provocação que o caso da Unilever nos deixa:
Uma boa auditoria interna não é aquela que encontra poucas não conformidades. É aquela que encontra o problema enquanto ele ainda pode ser resolvido dentro de casa.
Referências:
ANVISA. Anvisa suspende fabricação de produtos de limpeza em unidade da Unilever. 2 set. 2026.
ANVISA. Resolução RE nº 3.443, de 1º de setembro de 2026.
UOL Economia. Anvisa suspende fabricação de produtos da Unilever em fábrica de SP. 3 set. 2026.
Unilever Brasil. Registros históricos relacionados aos sistemas de gestão das unidades brasileiras.
Unilever Careers. Publicações recentes para a planta de Vinhedo com referências a ISO 9001, ISO 14001 e auditorias do Sistema de Gestão.