Um trabalhador brasileiro produz, em média, um quarto do que um americano, sendo que o problema não é a falta de esforço, mas a escassez de capital, infraestrutura, tecnologia e qualificação, o que gera produtos de baixo valor agregado.
A trajetória da produtividade ao longo do tempo divide-se em fases bem definidas:
1965 a 1980 (Anos Dourados): O Brasil registrou seu maior crescimento de produtividade na história, impulsionado pelo processo de industrialização e pela migração massiva da mão de obra do campo para as cidades.
Anos 1980 e 1990 (A “Década Perdida”): A produtividade sofreu forte queda devido à crise econômica, hiperinflação e estagnação de investimentos, sendo compensada apenas parcialmente pela urbanização remanescente.
Anos 2000 a 2013 (Recuperação e Estagnação): O país viveu um breve ciclo de alta produtividade e inclusão social até 2008, seguido por uma trajetória de queda persistente, especialmente na indústria, puxada pela baixa competitividade internacional.
2014 a 2026 (Estagnação Crônica): Após as recessões e os desafios estruturais, os ganhos de produtividade registraram variações próximas de zero. Por exemplo, a produtividade do trabalho cresceu apenas 0,1% recentemente, o que distancia o Brasil de outras economias emergentes.
O fenômeno da produtividade não é uniforme. O único setor que apresentou crescimento robusto e contínuo nas últimas décadas é a agropecuária, que saltou significativamente devido à tecnologia e inovação. Em contrapartida, os setores de serviços e indústria têm puxado a produtividade média para baixo.
A indústria automotiva brasileira funciona como um espelho amplificado do fenômeno da produtividade nacional. Ela liderou os momentos de maior salto técnico do país, mas também sofreu profundamente com a estagnação estrutural da indústria de transformação.
O setor representa boa parte do PIB industrial brasileiro. Sua trajetória explica cronologicamente a produtividade no Brasil:
Anos 1950 a 1970: A arrancada da industrialização com a chegada oficial das montadoras estrangeiras nos anos 1950 consolidou a estratégia de substituição de importações. O setor foi o principal catalisador da migração da mão de obra do campo para as cidades. Fábricas altamente integradas no ABC Paulista geraram um rápido aprendizado técnico, impulsionando a média nacional de produtividade do trabalho.
Anos 1990: A abertura do mercado promovida no início da década expôs o Brasil à concorrência internacional. Para sobreviver, as montadoras remanescentes e novas entrantes reestruturaram suas linhas de montagem. Houve a introdução de robótica, técnicas de Just-in-Time, Lean Seis Sigma e células de manufatura enxuta. De acordo com estudos do IPEA, a produtividade industrial do trabalho deu um salto expressivo nessa década devido a essa modernização forçada.
Anos 2000 a 2013: Impulsionado pelo crédito fácil e pela expansão da classe média, o mercado explodiu, atingindo o pico histórico de produção de 3,5 milhões de veículos em 2013. Embora a escala de produção estivesse alta, as rachaduras estruturais apareceram. O setor começou a sofrer com gargalos de infraestrutura ferroviária e portuária, alta carga tributária e complexidade burocrática (o “Custo Brasil”). A produtividade por trabalhador começou a estagnar, pois o crescimento era garantido pelo volume de vendas internas, e não por eficiência real.
2014 a 2023: Uma severa recessão econômica despencou a produção de automóveis. Fábricas operando com altos níveis de capacidade ociosa destroem indicadores de produtividade. Menos carros produzidos, para a mesma estrutura instalada, elevam o custo unitário. Paralelamente, o Brasil se isolou da vanguarda tecnológica global: enquanto o mundo migrava para a eletrificação massiva e arquiteturas digitais, as fábricas locais continuavam focadas em plataformas de combustão interna mais antigas. A produtividade da indústria de transformação brasileira atingiu, neste período, os piores patamares em mais de 20 anos, conforme dados levantados pelo FGV IBRE.
O Momento Atual (2024–2026): O setor vive uma forte inflexão que tenta romper a estagnação de produtividade através de uma retomada massiva de investimentos (superando R$ 100 bilhões programados pelas montadoras). Programas federais como o Mover (Mobilidade Verde e Inovação) e a política Nova Indústria Brasil (NIB) passaram a condicionar créditos financeiros a investimentos locais em pesquisa, desenvolvimento e descarbonização. O foco mudou para a modernização das linhas de montagem automotiva com IoT (Internet das Coisas) e IA, visando produzir híbridos flex e elétricos localmente. O resultado operacional imediato reflete essa injeção de capital: a produção acumulou altas consistentes, batendo recordes operacionais pós-pandemia.
A indústria automotiva brasileira provou que consegue ser altamente produtiva da porta para dentro quando recebe investimentos de ponta. Contudo, seu teto de eficiência de longo prazo continua esbarrando nos mesmos nós que travam o resto do país: a urgência de qualificar a mão de obra para novas tecnologias e a necessidade de reduzir o emaranhado logístico e tributário nacional.
Com o fim do “bônus demográfico” (o período em que a proporção de pessoas em idade ativa era crescente), a única forma de aumentar a renda e a riqueza por habitante no Brasil de forma sustentável será elevando a produtividade do trabalho.
Lutamos há 30 anos pela produtividade no Brasil. É uma atividade que exige muita resiliência e inovação constante! Seguimos.
Fontes:
- Observatório da Produtividade Regis Bonelli (FGV IBRE)
- https://www.instagram.com/reel/DWE5AyCgJAz
- chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/setor-automotivo/20240321_RelatrioAnualProgramaRota2030_ex.2022_final.pdf
- https://www.mckinsey.com/br/our-insights/blog-made-in-brazil/o-que-aconteceu-com-a-industria-automotiva-no-brasil
- chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/8da6d29d-bad1-47dc-8f4e-1e0d6ace9cc8/contente
- https://www.youtube.com/watch?v=7wTEts8Z-LY
- https://www.youtube.com/watch?v=hl9V5589AMo&t=5s