A gestão da saúde e segurança no trabalho está passando por uma das maiores transformações das últimas décadas. Se antes o foco das organizações estava predominantemente na prevenção de acidentes físicos, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) amplia esse olhar ao incluir explicitamente os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais, tornando a saúde mental uma responsabilidade estratégica das empresas.
O tema ganha relevância diante dos números recentes divulgados pelo Ministério da Previdência Social. Em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15,6% em relação a 2024. Este número de afastamentos por transtornos mentais equivalem a cerca de 34% do total de acidentes e doenças do trabalho comunicados anualmente no Brasil, o que mostra que os riscos psicossociais deixaram de ser um tema de RH para se tornarem um tema de gestão de riscos corporativos. Trata-se do maior número já registrado no país. Ansiedade, depressão e transtornos depressivos recorrentes lideram as causas de afastamento, evidenciando um cenário de adoecimento crescente entre os trabalhadores brasileiros.
Ao mesmo tempo, os acidentes de trabalho continuam representando um desafio importante. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego apontam mais de 1,6 mil mortes decorrentes de acidentes de trabalho apenas no primeiro semestre de 2025. Esses números demonstram que as organizações precisam atuar simultaneamente na prevenção dos riscos físicos e dos fatores que afetam a saúde mental dos colaboradores.
É nesse contexto que a ISO 45001 se torna uma importante aliada das empresas. A norma internacional de Sistema de Gestão de Saúde e Segurança Ocupacional oferece uma abordagem estruturada para identificar perigos, avaliar riscos, implementar controles e promover a melhoria contínua do ambiente de trabalho.
Mais do que atender requisitos legais, a ISO 45001 incentiva uma cultura preventiva. A norma estabelece mecanismos para identificar não apenas riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos, mas também fatores psicossociais que podem impactar a saúde dos trabalhadores, como sobrecarga de trabalho, assédio, estresse ocupacional, conflitos interpessoais, falta de autonomia e desequilíbrio entre vida pessoal e profissional.
A convergência entre a nova NR-1 e a ISO 45001 é evidente. Enquanto a legislação brasileira exige que as empresas passem a considerar formalmente os riscos psicossociais em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR), a ISO 45001 oferece a metodologia necessária para transformar essa exigência em processos consistentes e sustentáveis.
Os benefícios vão além da conformidade legal. Organizações que adotam sistemas estruturados de gestão tendem a reduzir acidentes, afastamentos, absenteísmo e custos relacionados a indenizações e benefícios previdenciários. Além disso, fortalecem o engajamento dos colaboradores, melhoram o clima organizacional e aumentam sua capacidade de atrair e reter talentos.
Afinal, cuidar das pessoas não é apenas uma obrigação legal. É uma estratégia essencial para a continuidade e a competitividade dos negócios.
Referências:
- Ministério da Previdência Social – Benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais (2025).
- Ministério do Trabalho e Emprego – Inclusão dos fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
- Ministério do Trabalho e Emprego – Manual de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e aplicação da NR-1.
- Tribunal Superior do Trabalho – Nova NR-1 amplia a prevenção de riscos para a saúde mental nos ambientes de trabalho.
- Organização das Nações Unidas – Relatório sobre crescimento dos afastamentos por problemas de saúde mental no Brasil.
- Associação Nacional de Medicina do Trabalho – Levantamento sobre afastamentos decorrentes de problemas de saúde mental entre 2023 e 2025.
- ISO 45001:2018 – Occupational Health and Safety Management Systems – Requirements with Guidance for Use.