Resumo
Este artigo relata uma experiência de consultoria do Projeto Lean nas Emergências em um hospital da Zona da Mata de Alagoas. A experiência é contextualizada pelas desigualdades territoriais na distribuição de médicos e pela necessidade de ampliar a eficiência do SUS. Ao longo da jornada, ferramentas de gestão de fluxo, indicadores e melhoria contínua foram utilizadas em parceria com os colaboradores, com avanços relevantes nos resultados e, sobretudo, no protagonismo da equipe. O relato reforça que a sustentabilidade da transformação depende das pessoas.
Palavras-chave: Lean nas Emergências; SUS; gestão em saúde; melhoria de processos; interiorização; Alagoas.
Quando o Lean encontra o território
Há projetos que terminam quando a equipe de consultoria vai embora. E há projetos que continuam existindo depois que as malas são fechadas, a última reunião termina e as portas do hospital ficam para trás.
Nossa experiência no interior de Alagoas pertence à segunda categoria.
Chegamos a uma cidade de aproximadamente 60 mil habitantes, na Zona da Mata alagoana, marcada pela resistência e pela história do Quilombo dos Palmares. Talvez não seja por acaso que encontramos ali uma equipe acostumada a lutar.
Dessa vez, porém, a batalha era outra: contra a superlotação, os tempos excessivos, os gargalos, os desperdícios e processos que, incorporados à rotina, pareciam difíceis de transformar. Era, sobretudo, uma luta por algo maior: oferecer um cuidado melhor para quem depende daquele hospital.
Quando o território também é parte do desafio
Falar de saúde no interior do Nordeste é falar também de desigualdade assistencial.
O SUS atende mais de 70% da população brasileira, cerca de 160 milhões de pessoas, e realiza uma quantidade expressiva de procedimentos e atendimentos em todo o país. Mas esse sistema não se distribui da mesma forma pelo território.
A Demografia Médica no Brasil 2025 mostra uma diferença importante: a razão de médicos nas capitais do Nordeste era de 6,95 por mil habitantes, enquanto no interior da região era de apenas 0,95. Em Alagoas, o contraste era ainda maior: 6,06 médicos por mil habitantes em Maceió contra 0,63 no interior.
Por trás desses números existem distâncias, deslocamentos, escassez de profissionais e equipes que precisam responder a grandes demandas com recursos mais restritos.
É nesse território que o SUS revela uma de suas maiores forças: chegar onde precisa chegar. E é também nesse território que eficiência deixa de ser apenas uma questão de gestão. Fazer melhor significa utilizar com inteligência cada recurso disponível e não desperdiçar o tempo de quem espera pelo cuidado.
Foi nesse lugar que o Lean encontrou as pessoas
O Lean não chegou como uma receita pronta. Chegou como uma nova maneira de enxergar o trabalho: mapear fluxos, identificar desperdícios, medir tempos, compreender gargalos, organizar processos e testar soluções.
Mas nenhuma ferramenta transforma uma emergência sozinha.
Quem transforma são as pessoas.
Nosso papel, como consultores do Projeto Lean, foi caminhar ao lado da equipe, ajudando a transformar o conhecimento que já existia sobre aquela realidade em método, dados e ação.
E também aprendemos. Aprendemos que uma pequena perda no processo pode representar horas de espera para um paciente. Que um indicador é muito mais do que um número. E que nenhuma mudança se sustenta quando as pessoas não se reconhecem nela.
Quando os números começam a contar histórias
A emergência passou a ser enxergada como um fluxo. Os gargalos ganharam nome, os desperdícios puderam ser identificados e os indicadores passaram a apoiar decisões.
LOS e NEDOCS deixaram de ser apenas números. Passaram a contar histórias sobre quem espera, quem cuida e sobre uma equipe que decidiu fazer diferente.
Essa lógica está no centro do Lean nas Emergências, iniciativa do Ministério da Saúde desenvolvida no âmbito do PROADI-SUS. Em diferentes ciclos do projeto, foram observadas reduções relevantes em superlotação e tempos de permanência e passagem, reforçando o potencial da metodologia para reorganizar fluxos e racionalizar recursos.
No território alagoano que nos recebeu, os resultados também começaram a aparecer. Um hospital que partia de um cenário de indicadores muito desfavoráveis passou a despontar entre os três melhores colocados.
É uma conquista enorme.
Mas os números não contam tudo. Eles não mostram a coragem de quem questionou o que parecia normal, as conversas difíceis, os aprendizados e cada pequena vitória construída ao longo do caminho.
Os números mostram o resultado. As pessoas explicam o resultado.
Melhorar processos também é cuidar
Um hospital não existe isoladamente.
Quando uma emergência reduz uma espera, alguém espera menos. Quando um leito gira mais rapidamente, outro paciente pode ser internado. Quando o retrabalho diminui, uma equipe ganha tempo e energia para cuidar.
Por isso, melhorar processos não é apenas uma questão de gestão. É uma forma concreta de ampliar acesso, reduzir desperdícios e fortalecer o cuidado.
Talvez essa seja uma das conexões mais bonitas entre Lean e SUS: melhorar o uso dos recursos é ampliar a capacidade de cuidar.
O projeto termina. A transformação continua.
Eu, Marcela, e Paulo tivemos o privilégio de viver essa jornada juntos, dividindo decisões, desafios, viagens, reuniões e aprendizados.
Chegamos como consultores. Saímos como parceiros de uma história que pertence, sobretudo, aos colaboradores que fizeram a transformação acontecer.
Hoje, no encerramento presencial do projeto, celebramos o que já foi conquistado. Mas não celebramos como quem chegou ao fim. Ainda existem desafios. Ainda há muito a melhorar.
E talvez essa seja justamente a maior conquista: uma equipe que descobriu que pode olhar para seus problemas, trabalhar com dados, testar soluções e continuar avançando.
O verdadeiro legado do Lean não são apenas as ferramentas. É uma nova maneira de olhar para o trabalho, para os processos e, principalmente, para as pessoas.
Porque alguns projetos terminam quando os consultores vão embora. Outros permanecem vivos nas pessoas que descobriram que podem transformar.
Este é um deles.
O projeto presencial terminou. A transformação continua.
Por Marcela Silva e Paulo Cortez
Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Lean nas Emergências. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/l/lean-nas-emergencias/lean-nas-emergencias/. Acesso em: 28 ago. 2026.
SCHEFFER, M. et al. Demografia Médica no Brasil 2025. São Paulo: FMUSP/AMB, 2025.
IBGE. Cidades e Estados: União dos Palmares – AL. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/al/uniao-dos-palmares.html. Acesso em: 28 ago. 2026.