Durante décadas, hospitais cresceram ampliando leitos, estruturas e equipes. Uma nova projeção, porém, sugere que o próximo salto da saúde poderá acontecer justamente fora de seus muros.
O relatório 2026 Impact of Change Forecast, elaborado pela Vizient para o mercado norte-americano, estima que, entre 2026 e 2036, as altas hospitalares crescerão 7%, enquanto o volume ambulatorial avançará 20% e os cuidados pós-agudos, 31%. A assistência domiciliar deverá crescer 27% já nos próximos cinco anos. Em 2036, 20% das consultas de avaliação e acompanhamento poderão ocorrer virtualmente.
Os números não devem ser transportados automaticamente para o Brasil, mas revelam uma transformação relevante: o hospital continuará essencial, especialmente para casos de maior complexidade, porém deixará de ser o centro de toda a jornada assistencial.
A demanda ambulatorial deverá crescer principalmente em cardiologia, com 29%; neurociências, 27%; saúde comportamental, 22%; e oncologia, 20%. Ao mesmo tempo, o pronto-socorro poderá receber 6% mais pacientes, com aumento dos casos de maior gravidade.
Isso cria um paradoxo: mais cuidado fora do hospital não significa menor pressão sobre sua operação. Ao contrário, os pacientes internados tendem a apresentar maior complexidade, enquanto falhas na atenção primária, no acompanhamento e na adesão aos medicamentos podem gerar internações evitáveis. Gargalos no cuidado pós-agudo também atrasam altas, aumentam o tempo de permanência e ocupam leitos necessários.
A resposta, portanto, não está apenas em construir novas unidades. Está em redesenhar o sistema de cuidado.
Hospitais precisarão mapear toda a jornada do paciente, integrar assistência hospitalar, ambulatórios, telemedicina, atenção domiciliar e serviços pós-agudos. Também deverão aprimorar a previsão de demanda, o planejamento da alta, a comunicação entre equipes e o acompanhamento depois da internação.
Sistemas de saúde precisarão de apoio no redesenho desses fluxos, utilizando Lean Healthcare, gestão da capacidade, análise de riscos e melhoria de processos. Afinal, preparar o hospital do futuro não significa olhar apenas para o que acontece dentro dele, mas garantir que o cuidado continue funcionando antes do paciente precisar de assistência e quando ele atravessar a porta de saída.
Referências:
- Vizient — 2026 Impact of Change Forecast
- American Hospital Association — projeções da demanda em saúde até 2036