O primeiro carro 100% elétrico da Ferrari chegou ao mercado fazendo barulho, mesmo sem um motor V12. Uma unidade única do Ferrari Luce, o “Chassis 0”, foi arrematada em agosto de 2026 por US$ 40 milhões, cerca de R$ 208 milhões. Mas, por trás do valor recorde, existe uma estratégia de transformação que diz muito sobre o futuro da indústria automotiva.
Durante anos, Ferrari e carro elétrico pareciam conceitos quase incompatíveis.
Poucas marcas construíram uma identidade tão ligada ao motor quanto a Ferrari. O som, a potência, a aceleração e até a experiência emocional de dirigir fazem parte do valor entregue ao cliente.
Então, como eletrificar uma Ferrari sem deixar de ser Ferrari?
A resposta começou a aparecer com o Ferrari Luce, primeiro modelo 100% elétrico da fabricante italiana.
Em agosto de 2026, uma versão exclusiva do modelo, denominada “Chassis 0”, foi vendida em leilão por US$ 40 milhões, aproximadamente R$ 208 milhões. O exemplar recebeu acabamento exclusivo desenvolvido pelo programa Tailor Made da Ferrari.
Mais do que o preço, porém, chama atenção o simbolismo: o primeiro elétrico de uma das marcas mais associadas aos motores a combustão tornou-se imediatamente um objeto de desejo.
A Ferrari não abandonou o motor a combustão.Talvez aqui esteja a parte mais interessante da estratégia. Para 2030, a empresa projeta um portfólio formado aproximadamente por:
- 40% de modelos com motor a combustão
- 40% de modelos híbridos
- 20% de modelos totalmente elétricos
Ou seja, até a Ferrari se rendeu ao elétrico, mas não exclusivamente a ele.
A estratégia é manter diferentes tecnologias convivendo e permitir que inovação, demanda do mercado, regulamentação e preferência dos clientes determinem a velocidade da transformação.
A empresa também investiu em sua estrutura industrial em Maranello. O novo e-building foi projetado para permitir a produção de veículos a combustão, híbridos e elétricos, além de componentes estratégicos da eletrificação.
Transformação não é sinônimo de substituição. Quando uma nova tecnologia ganha espaço, é comum tratarmos a mudança como uma escolha binária.
Elétrico ou combustão. Digital ou presencial. Inteligência artificial ou pessoas.Novo ou antigo.
Mas grandes transformações raramente acontecem dessa maneira.
A estratégia da Ferrari mostra outra possibilidade: incorporar uma nova tecnologia sem destruir aquilo que continua gerando valor.
No caso da Ferrari, sua essência nunca foi apenas o motor a combustão. É performance, design, exclusividade, tecnologia e emoção. O motor foi, durante décadas, uma das formas de entregar essa promessa.
Agora a empresa precisa provar que consegue entregar a mesma essência utilizando também outra tecnologia. Uma pergunta que vale para qualquer empresa. Esse talvez seja o ponto mais interessante para quem trabalha com transformação, excelência operacional e inovação.
Diante de uma ruptura tecnológica, a pergunta não deveria ser apenas: O que precisamos mudar?
Existe uma segunda pergunta igualmente importante: O que não podemos perder durante essa mudança?
Empresas que protegem tudo correm o risco de ficar presas ao passado. Mas empresas que mudam tudo também podem destruir justamente aquilo que as tornou relevantes. A transformação está no equilíbrio entre essas duas forças.
Se a Ferrari conseguir entregar performance, exclusividade e emoção em um veículo elétrico, talvez dizer que ela “se rendeu” à eletrificação, não seja correto.
Talvez a Ferrari esteja tentando fazer o elétrico se render à Ferrari.