Eventos climáticos extremos deixaram de ser uma preocupação distante ou exclusivamente ambiental. Enchentes, chuvas intensas, ciclones, secas e ondas de calor já interrompem fábricas, bloqueiam rodovias, paralisam portos, comprometem o fornecimento de energia e impedem que componentes cheguem ao destino.
Um relatório do CDP: organização internacional Carbon Disclosure Project, responsável por um sistema global independente de divulgação de informações ambientais, mostra a dimensão financeira desse problema.
Entre as 11.261 empresas analisadas, apenas 35% reconhecem os eventos climáticos extremos como risco financeiro material. Apesar disso, foram reportados quase US$ 3 bilhões em perdas efetivas somente em 2025.
Para os próximos anos, as empresas projetam impactos de aproximadamente US$ 714 bilhões, principalmente relacionados a:
- inundações: US$ 389 bilhões;
- ciclones: US$ 126 bilhões;
- chuvas intensas: US$ 82 bilhões.
Quase metade dos riscos identificados (48%) poderá se materializar nos próximos dois anos. As maiores consequências esperadas são a redução da capacidade produtiva, estimada em US$ 326 bilhões, e a desvalorização ou desativação antecipada de ativos, que poderá alcançar US$ 122 bilhões.
O risco pode estar longe da empresa. Muitas análises de riscos ainda se concentram dentro dos limites da organização: a fábrica, os equipamentos, os estoques, os processos e os sistemas internos.
Mas a empresa pode estar localizada em uma região segura e, ainda assim, ter sua produção interrompida porque:
- um fornecedor crítico está em uma área sujeita a enchentes;
- uma rodovia utilizada no abastecimento possui histórico de interdição;
- o único porto disponível está exposto a tempestades;
- uma região fornecedora enfrenta escassez de água;
- um centro logístico depende de uma rede elétrica vulnerável;
- diferentes fornecedores utilizam a mesma infraestrutura;
- um componente atravessa diversos pontos geográficos sem rota alternativa.
O CDP chama a atenção justamente para esse caráter sistêmico. As perdas não ficam restritas aos ativos diretamente atingidos: propagam-se por infraestruturas, serviços públicos, redes logísticas, seguros e cadeias de fornecimento das quais várias organizações dependem.
O segredo é localizar geograficamente os pontos vulneráveis. O passo seguinte é sobrepor essas localizações aos dados de ameaças climáticas: histórico e projeções de enchentes, deslizamentos, calor extremo, secas, incêndios, tempestades e indisponibilidade de infraestrutura.
Essa visão geográfica permite identificar concentrações que uma avaliação convencional dificilmente revelaria. Dois fornecedores cadastrados como alternativas podem, por exemplo, estar na mesma bacia hidrográfica, depender do mesmo porto ou utilizar a mesma rodovia. No papel, existem duas fontes. Na prática, o risco continua sendo único.
Os sistemas de gestão devem transformar essas informações em decisões concretas. A análise precisa considerar a probabilidade do evento, sua severidade, o tempo de recuperação e a existência de alternativas reais.
Também é necessário acompanhar mudanças. Um risco considerado baixo com base no histórico pode crescer rapidamente. Prevenir custa menos do que interromper. Segundo o CDP, o custo médio dos riscos ambientais foi de US$ 39,4 milhões por empresa, enquanto o investimento médio necessário para mitigá-los foi de US$ 3,1 milhões: uma diferença próxima de 13 vezes.
A mensagem é clara: prevenir pode parecer caro até o momento em que a operação para. O risco climático precisa sair dos relatórios de sustentabilidade e entrar nas análises de riscos, na gestão de fornecedores, no planejamento logístico, nos investimentos e nas decisões da alta direção.
A pergunta deixou de ser apenas “quais eventos climáticos podem ocorrer?”. A pergunta mais importante agora é:
onde estão os pontos vulneráveis da nossa cadeia e o que acontecerá com a operação quando um deles for atingido?