Resposta rápida: os CQIs da AIAG se dividem em dois grupos. O primeiro reúne 10 avaliações de processo especial (tratamento térmico, galvânica, pintura, solda, fundição, entre outras), com autoavaliação anual exigida pelas montadoras. O segundo é um conjunto de guidelines de apoio que trata de problem solving, error-proofing, rastreabilidade, software. A série é viva e já chegou ao CQI-38, publicado em 2026.
O fornecedor costuma descobrir que precisa de um CQI no pior momento: quando o cliente marca a auditoria e pede a autoavaliação do processo. O prazo já está curto, e a engenharia da qualidade corre atrás de um manual que deveria estar rodando há meses.
Boa parte da confusão vem de tratar os CQIs como uma pilha única de documentos, quando na verdade eles têm funções bem diferentes. Este texto organiza esses manuais por finalidade, indica quais se aplicam a cada processo produtivo e fecha no ponto que costuma decidir a certificação.
O público aqui é quem vive isso na pele: engenharia da qualidade e SQA de fornecedores Tier 1 e Tier 2.
O que são os CQIs da AIAG?
CQI é a sigla de Continuous Quality Improvement, o nome da família de manuais publicada pela AIAG (Automotive Industry Action Group).
Cada manual nasce de um grupo de trabalho por tema, com participação de montadoras e fornecedores, e vira referência de como avaliar e controlar um processo dentro da cadeia IATF 16949.
Vale separar os dois tipos logo de início, porque eles não funcionam da mesma forma.
Avaliação de processo especial: um questionário de autoavaliação para um processo produtivo específico. As montadoras exigem que o fornecedor rode essa avaliação todo ano e a cada mudança relevante de processo ou equipamento.
Guideline: um manual de método, que atravessa qualquer processo. Serve para problem solving, error-proofing, rastreabilidade e outros temas que não pertencem a uma linha só.
E por que existe um manual dedicado a cada processo produtivo? Porque esses são processos especiais, ou seja, aqueles em que não dá para confirmar a conformidade medindo a peça pronta.
Você não enxerga na superfície se a camada galvânica vai resistir à corrosão, nem se a têmpera atingiu a dureza no núcleo da peça. A garantia vem do controle durante a operação, quase sempre com validação e ensaio destrutivo.
É essa característica que justifica a auditoria de processo especial automotivo em vez de uma simples inspeção final.
Os 10 manuais de processo especial (o que o cliente cobra na auditoria)
Este é o bloco que o SQA do cliente costuma exigir na autoavaliação anual. Cada CQI corresponde a um processo produtivo, e a aplicação depende do que a sua planta faz. Uma fundição não roda o manual de galvânica; uma linha de solda não roda o de moldagem.
| CQI | Processo | Referência |
| CQI-9 | Tratamento Térmico | 4ª edição |
| CQI-11 | Tratamento Superficial | 3ª edição |
| CQI-12 | Revestimento | 3ª edição |
| CQI-15 | Solda | 2ª edição |
| CQI-17 | Solda em Montagem de Componentes Eletrônicos | 3ª edição |
| CQI-23 | Moldagem Polimérica | 3ª edição |
| CQI-27 | Fundição | 2ª edição |
| CQI-29 | Brasagem | 1ª edição |
| CQI-30 | Compostos de Borracha | 1ª edição |
| CQI-32 | Barras de Aço | 1ª edição |
| CQI-35 | Chicotes Elétricos | 1ª edição |
Fonte dos manuais e edições: AIAG
O CQI-35, sobre chicotes elétricos, é o mais novo desse grupo e mostra como a lista continua se movendo. Se o seu processo entra em qualquer uma dessas linhas, a autoavaliação correspondente vira parte dos requisitos Ford, GM e Stellantis.
Os guidelines: os outros manuais CQI que quase ninguém mapeia
Fora as avaliações de processo, a AIAG mantém um conjunto de guidelines que resolve problemas comuns a qualquer fornecedor. Costumam passar despercebidos justamente porque não aparecem na autoavaliação anual, mas sustentam boa parte do que o auditor pede. Agrupando por finalidade:
- Problem solving e melhoria: CQI-20 (Effective Problem Solving Guide), CQI-8 (Layered Process Audit) e CQI-18 (Effective Error-Proofing).
- Controle estatístico: CQI-25 (SPC Quick Start) e CQI-26 (SPC Short Run), voltado a produção de baixo volume.
- Fornecedor, garantia e rastreabilidade: CQI-19 (gestão de subfornecedor e Pass-Through Characteristics), CQI-14 (garantia) e CQI-28 (rastreabilidade).
- Custo e risco de projeto: CQI-22 (Custos da Não Qualidade) e CQI-24 (DRBFM).
- Digital, software e IA: CQI-33 (troca de Technical Data Package), CQI-34 (Software Assurance Approval Process, o “PPAP do software”) e CQI-38 (inspeção por visão com IA, de 2026).
- Segurança do produto: CQI-37 (Guia de Gerenciamento de Materiais a Granel/Itens de Catálogo Críticos para a Segurança)
Repare em um detalhe importante para quem escreve procedimento ou monta plano de auditoria: a série não é fechada. Muita gente ainda trata CQI-34 e CQI-35 como as novidades, mas a AIAG já publicou o CQI-37 e o CQI-38 depois deles. Ou seja, qualquer lista com número fixo de documentos envelhece rápido.
Se a sua equipe quer acompanhar o calendário de lançamentos dos CQIs, a SETEC mantém um material sobre os novos manuais previstos pela AIAG, que ajuda a não ficar para trás.
Qual CQI o auditor cobra primeiro? O ponto que decide a certificação
Aqui vem a parte que muda o resultado da auditoria. Existe uma expectativa comum de que o auditor vá procurar manual faltando ou autoavaliação vencida. Acontece, claro. Mas não é ali que a maioria dos fornecedores tropeça.
As estatísticas, no IATF Global Oversight, apontam as cláusulas de não conformidade maiores mais recorrentes na cadeia, sendo elas:
- Solução de Problemas (10.2.3)
- Não Conformidade e Ação Corretiva (10.2.1)
- Saídas do Projeto do Processo de Manufatura (8.3.5.2)
- Análise do Sistema de Medição (7.1.5.1.1)
- Plano de Controle (8.5.1.1)
Duas dessas cinco pertencem à mesma família: ação corretiva e solução de problemas.
Nestes processos o campeão isolado continua sendo a eficácia da ação corretiva, e a raiz costuma estar antes: uma análise de causa raiz rasa gera uma ação que não resolve, que reabre a não conformidade na auditoria seguinte.
O que isso quer dizer na prática? O fornecedor abre a ação corretiva, descreve a contenção, aponta uma causa e fecha o registro. Meses depois, o problema volta. A evidência de acompanhamento não existe, ninguém verificou se a ação pegou, e a responsabilidade pela verificação ficou no ar.
É exatamente este padrão que é encontrado em boa parte das auditorias: implementação sem follow-up, execução inconsistente e falta de etapa de verificação.
Neste caso, não só os CQIs voltados para a avaliação de processos especiais podem ajudar, mas podem ser utilizados em conjunto com os outros guidelines para um resultado prático mais efetivo na prevenção e solução de falhas recorrentes.
Por que isso importa para o seu resultado?
Utilizar os CQIs corretamente não é só ter bons resultados na auditoria.
A aplicação disciplinada dos manuais CQI em processos especiais de uma organização traz resultados no número de não conformidades e redução de custos. O manual, quando sai do papel, aparece nos resultados.
A conta cresce quando você soma o que a não qualidade custa dentro da fábrica. O custo do retrabalho e o refugo raramente entram na planilha da diretoria com o valor cheio, e é justamente aí que o controle de processo especial paga a si mesmo.
Uma auditoria interna bem conduzida encontra esses pontos antes do auditor externo, e transforma o que seria uma não conformidade em ganho de eficiência.
Comece pela autoavaliação certa antes que o cliente exija
Se a sua planta tem processo especial, o momento de preparar a autoavaliação da AIAG é agora, não na semana da auditoria. A SETEC mantém um calendário de treinamentos automotivos e de CQIs para engenharia da qualidade e qualidade de fornecedores, com foco em quem precisa dominar a avaliação de processo especial automotivo e a mecânica de ação corretiva que o IATF exige.
Veja as próximas turmas no calendário de treinamentos automotivos da Setec e chegue preparado para as auditorias dos clientes.
Conclusão
O mapa dos CQIs da AIAG fica mais simples quando você para de contar documentos e passa a olhar função: avaliações para os processos especiais que a sua planta opera e guidelines de método para outros aprimoramentos. A série muda todo ano, então vale acompanhar em vez de decorar uma lista.
E, na hora da auditoria, o manual sozinho não sustenta a certificação. O que sustenta é a prova de que a ação corretiva fechou o problema e ele não voltou. Essa é a diferença entre um fornecedor que passa raspando e um que usa o próprio sistema da qualidade para reduzir perda.
Onde está, hoje, a última ação corretiva que a sua equipe fechou sem verificar a eficácia?
FAQ
O que são os CQIs da AIAG? São os manuais de Continuous Quality Improvement publicados pela AIAG. Uma parte avalia processos produtivos específicos (as avaliações de processos especiais), e outra parte reúne guidelines de método, como solução de problemas, rastreabilidade e prova de falhas.
Quais CQIs são obrigatórios? Nenhum é lei, mas viram exigência contratual. As montadoras exigem as avaliações de processo especial aplicáveis à sua planta, todo ano e a cada mudança de processo ou equipamento, como parte da conformidade IATF 16949. Na prática, o que o seu processo produz define o que o cliente cobra.
Por que processo especial precisa de CQI e um processo comum não? Porque em um processo especial a conformidade não pode ser confirmada medindo/ avaliando a peça pronta, o que exige muitas vezes, ensaio destrutivo. O CQI garante que o controle aconteça durante a operação, e não só na inspeção final.
CQI-34 e CQI-35 são os manuais mais novos? Não são mais. Depois deles, a AIAG publicou o CQI-37, sobre materiais a granel críticos de segurança, e o CQI-38, sobre inspeção por visão com IA, de 2026. O CQI-34 trata de aprovação de software e o CQI-35, de qualidade de chicote elétrico.
Na auditoria IATF, o que o auditor mais reprova nessa área? Não costuma ser documento faltando. Dentro da cláusula 10.2.1, que cobra a eficácia das ações corretivas, concentra a maior parte das não conformidades. O desafio é provar que a ação resolveu o problema de verdade.