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Com a IA, gestores precisam redefinir valor, redistribuir o tempo e aprender a liderar agentes

  • julho 17, 2026

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A inteligência artificial muda a gestão porque altera a relação entre esforço, tempo e resultado. Durante décadas, muitas organizações associaram produtividade ao volume de atividades executadas, ao número de horas trabalhadas e à velocidade de resposta. Quando sistemas de IA passam a redigir documentos, consolidar dados, pesquisar informações e executar fluxos operacionais, essas métricas deixam de representar adequadamente o valor produzido. A responsabilidade do gestor passa a ser identificar quais resultados são relevantes para clientes, processos e estratégia, separando produção efetiva de simples movimentação de trabalho.

A automação de uma atividade não gera valor automaticamente. Ela pode apenas acelerar um processo desnecessário, reproduzir uma decisão inadequada ou aumentar a quantidade de entregas que ninguém utiliza. A criação de valor depende da relação entre qualidade, impacto, risco, custo e tempo de resposta. Por isso, gestores precisam revisar indicadores baseados exclusivamente em volume, como quantidade de relatórios, reuniões, chamados ou análises produzidas, substituindo-os por métricas ligadas à resolução de problemas, à qualidade das decisões, à experiência do cliente e aos resultados financeiros ou operacionais alcançados.

A IA também obriga os gestores a redistribuir deliberadamente o tempo economizado. Estudos experimentais analisados pela OCDE identificaram ganhos de produtividade entre 5 por cento e mais de 25 por cento em atividades como atendimento, desenvolvimento de software, redação, síntese e consultoria. Entretanto, o ganho tecnológico somente se converte em desempenho organizacional quando o tempo liberado é direcionado para atividades de maior valor, como relacionamento com clientes, melhoria de processos, inovação, análise crítica e desenvolvimento de pessoas (OCDE, 2025).

Sem essa redistribuição, a organização corre o risco de preencher o tempo liberado com mais solicitações, reuniões, relatórios e controles. O resultado é uma forma de intensificação digital do trabalho, na qual cada profissional produz mais, mas não necessariamente resolve problemas mais importantes. O gestor precisa tratar a capacidade liberada pela IA como um recurso estratégico, definindo previamente qual atividade será eliminada, qual será automatizada, qual será ampliada e para onde as horas recuperadas serão transferidas.

Esse redesenho deve ocorrer no nível das tarefas, não apenas dos cargos. Evidências reunidas pela OCDE indicam que a reorganização do trabalho tem sido mais frequente do que a substituição integral de empregos, com a automação deslocando profissionais para atividades nas quais as capacidades humanas apresentam vantagem comparativa, como interpretação, interação social e tomada de decisão contextual (OCDE, 2023). A unidade fundamental de análise deixa de ser o posto de trabalho e passa a ser o conjunto de tarefas, decisões, exceções e responsabilidades que compõem cada função.

Ao mesmo tempo, o gestor passa a liderar uma força de trabalho híbrida, composta por pessoas, copilotos e agentes de IA. Diferentemente de uma ferramenta passiva, um agente pode receber objetivos, selecionar ações, consultar fontes, utilizar sistemas e executar etapas com diferentes níveis de autonomia. O Work Trend Index de 2025 identificou o surgimento de estruturas organizacionais nas quais profissionais lideram equipes híbridas formadas por pessoas e agentes, criando uma nova responsabilidade gerencial relacionada à configuração, coordenação e supervisão do trabalho digital (Microsoft, 2025).

Gerir agentes exige competências semelhantes às utilizadas na gestão de pessoas, mas não idênticas. O gestor precisa definir objetivos, contexto, limites de atuação, fontes autorizadas, critérios de qualidade, condições de escalonamento e permissões de acesso. Também precisa determinar quais decisões podem ser executadas automaticamente e quais exigem aprovação humana. Um agente mal configurado pode cumprir corretamente uma instrução tecnicamente inadequada, ampliando o erro em escala e velocidade superiores às de uma execução manual.

A governança dos agentes deve estabelecer responsabilidade explícita por seus resultados. O NIST recomenda que as organizações definam e diferenciem papéis e responsabilidades nas configurações humano e IA, incluindo supervisão, avaliação, documentação e gestão de riscos. Isso significa que cada agente corporativo deve possuir um responsável de negócio, um escopo delimitado, métricas de desempenho, registros de execução e mecanismos de interrupção. A autonomia tecnológica não elimina a responsabilidade humana pela decisão de implantar, configurar e manter o sistema (NIST, 2023).

A avaliação de desempenho também precisa considerar o sistema sociotécnico completo. Não basta medir a precisão isolada do agente. É necessário acompanhar tempo de ciclo, taxa de exceção, frequência de intervenção humana, retrabalho, custo por transação, impacto no cliente e gravidade dos erros. Um agente que automatiza 90 por cento das solicitações pode ser economicamente inadequado caso os 10 por cento restantes concentrem riscos jurídicos, financeiros ou reputacionais elevados. A eficiência média não pode ocultar a severidade das falhas nas situações críticas.

O papel do gestor, portanto, deixa de ser predominantemente distribuir tarefas e acompanhar execução. Ele passa a desenhar fluxos de trabalho, combinar capacidades humanas e computacionais, proteger espaços para julgamento e transformar tempo economizado em resultados superiores. Essa transição exige letramento em IA, domínio de processos e capacidade de governança. O gestor competente não será aquele que utilizar o maior número de agentes, mas aquele que souber atribuir a cada pessoa e a cada sistema a responsabilidade adequada, preservando controle, aprendizado e geração efetiva de valor.

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Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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