A China estabeleceu a meta de que os veículos de novas energias representem 70% das vendas de automóveis de passeio novos até 2030. Para os veículos comerciais, o objetivo é chegar a 40%.
A categoria chinesa de veículos de novas energias não se limita aos elétricos puros. Ela também inclui híbridos plug-in e veículos movidos a célula de combustível.
As metas fazem parte do plano para o desenvolvimento da indústria de veículos inteligentes, conectados e de novas energias, elaborado por nove órgãos governamentais chineses. (automotivebusiness.com.br)
A meta vai muito além da eletrificação.
O plano prevê também:
- adoção em larga escala de veículos com direção autônoma;
- condução automatizada em rodovias, vias expressas e áreas urbanas determinadas;
- presença de montadoras chinesas entre as dez maiores do mundo;
- entrada de fabricantes chineses de componentes entre os 100 maiores fornecedores globais;
- maior participação da China na elaboração das normas e regulamentações internacionais;
- pico das emissões de carbono da indústria automotiva até 2030, seguido de redução.
Portanto, não se trata apenas de substituir o motor a combustão por uma bateria.
A China pretende dominar o veículo, os componentes, o software, a inteligência embarcada, a infraestrutura industrial e, cada vez mais, as regras que definirão o mercado.
De seguidora a formuladora de padrões.
Durante muitos anos, fabricantes chineses precisaram atender a normas, tecnologias e requisitos desenvolvidos principalmente por empresas e organismos ocidentais ou japoneses.
Agora, o país quer ampliar sua influência sobre a elaboração das normas internacionais.
Essa mudança é estratégica. Quem participa desde o início da definição de uma norma consegue antecipar requisitos, preparar sua cadeia, desenvolver soluções compatíveis e reduzir o custo de adequação.
As empresas chinesas já conquistaram escala em baterias, eletrônica de potência, motores elétricos, software e sistemas de assistência à condução. O próximo passo é aumentar sua influência sobre os padrões técnicos e regulatórios que serão adotados em outros mercados.
O impacto alcançará toda a cadeia.
Uma participação de 70% nas vendas chinesas significa milhões de veículos e uma demanda enorme por:
- baterias e materiais críticos;
- semicondutores e componentes eletrônicos;
- motores e inversores;
- sistemas térmicos;
- software e cibersegurança;
- sensores e sistemas de assistência à condução;
- infraestrutura de carregamento;
- reciclagem e logística reversa.
A escala tende a acelerar o aprendizado, reduzir custos e ampliar ainda mais a diferença de velocidade entre os fabricantes chineses e as empresas que ainda tratam a eletrificação como um projeto futuro.
Ao mesmo tempo, o próprio governo chinês já reconhece os riscos do excesso de capacidade e da guerra de preços. Por isso, crescimento não poderá significar apenas lançar mais modelos: será necessário demonstrar segurança, confiabilidade, qualidade e sustentabilidade financeira.
O que isso significa para o Brasil
O impacto não ficará restrito ao mercado chinês.
Com maior escala e pressão competitiva interna, as montadoras buscarão novos mercados. O Brasil será um dos destinos naturais, tanto para veículos importados quanto para investimentos em produção local e parcerias com fabricantes estabelecidos.
Os fornecedores brasileiros precisarão decidir como participar dessa transformação. Algumas perguntas tornam-se inevitáveis:
- Em quais tecnologias ainda somos competitivos?
- Que componentes correm risco de ser substituídos por soluções chinesas?
- Estamos preparados para ciclos de desenvolvimento mais curtos?
- Conseguimos atender simultaneamente a requisitos chineses, brasileiros e internacionais?
- Temos capacidade para desenvolver software, eletrônica e sistemas eletrificados?
- Quais alianças podem acelerar nosso acesso a novas tecnologias?
A meta chinesa de 70% não é apenas uma projeção de vendas. É uma declaração de política industrial.
A China não pretende somente liderar a produção dos veículos do futuro. Pretende também desenvolver os componentes, dominar as tecnologias e participar da definição das regras pelas quais todos os demais terão de competir.
Fonte: Automotive Business — China quer veículos de novas energias em 70% das vendas