A indústria automotiva chinesa mostrou ao mundo que é possível desenvolver um veículo em aproximadamente 18 meses. Agora, o próprio governo chinês alerta: velocidade não pode substituir testes, validação e segurança.
Após reconhecer que algumas inovações chegaram ao mercado sem validação suficiente, a China anunciou uma campanha nacional de um ano para reforçar a qualidade, a confiabilidade e a segurança dos veículos.
As montadoras deverão realizar autoavaliações abrangentes, incluindo seus principais fornecedores, e entregar relatórios às autoridades até o final de 2026. Caso encontrem defeitos, terão de apresentar rapidamente planos de recall.
A fiscalização também avaliará segurança funcional, cibersegurança, proteção de dados, atualizações de software, direção assistida, resposta a incidentes e validação de novas tecnologias.
A fiscalização da China já começou
O governo chinês já realizou inspeções em fábricas da GAC Aion, XPeng, Chery, Nio e JAC. Veículos e baterias foram selecionados aleatoriamente e encaminhados a instituições independentes para testes de conformidade.
A China também dobrou de 15 mil para 30 mil quilômetros a quilometragem obrigatória dos testes de durabilidade dos veículos eletrificados.
As medidas surgem após o recall de aproximadamente 4,3 milhões de veículos por problemas relacionados à abertura emergencial das portas. Entretanto, seu significado vai além desse caso específico.
O que muda para o APQP?
Fabricantes chineses reduziram drasticamente o tempo de desenvolvimento com engenharia simultânea, simulações, inteligência artificial, componentes previamente validados e menor quantidade de protótipos físicos.
Essas práticas não são necessariamente incompatíveis com a qualidade. O problema aparece quando a redução do prazo também reduz as evidências necessárias para demonstrar segurança, durabilidade e confiabilidade.
O caso traz uma lição importante para todas as montadoras e fornecedores que estão encurtando seus ciclos de APQP: acelerar não significa simplesmente eliminar etapas.
É necessário definir quais atividades podem ocorrer simultaneamente, quais componentes podem reutilizar validações anteriores e quais testes continuam indispensáveis. Simulações e inteligência artificial também precisam ser correlacionadas com ensaios físicos e dados de campo.
Velocidade com qualidade
As montadoras tradicionais precisam aprender com a agilidade chinesa. Processos excessivamente sequenciais, decisões demoradas e aprovações burocráticas não podem continuar aumentando o tempo de desenvolvimento sem agregar qualidade.
Mas o alerta chinês mostra o outro lado dessa transformação: desenvolver mais rápido só é sustentável quando a prevenção acompanha a velocidade.
O desafio não é escolher entre rapidez e qualidade. É construir um APQP capaz de entregar as duas.
Fontes: UOL — Inovações agressivas: China endurece regras para carros e Reuters — China launches year-long auto quality drive.