Uma leitura Lean sobre bandejas do centro cirúrgico, resíduos e o uso da capacidade de processamento.
Quem conhece a rotina de um centro cirúrgico sabe que uma cirurgia começa muito antes de o paciente entrar na sala. Instrumentos precisam ser separados, montados em bandejas, conferidos, transportados e esterilizados. Depois do procedimento, boa parte desse fluxo acontece novamente, de forma reversa. É uma etapa necessária. A questão é, necessária com relação a quantidade disponibiliza versus utilizada?
Um estudo publicado em 2026 trouxe um dado que merece atenção. Os pesquisadores acompanharam 275 cirurgias de mama realizadas em três hospitais e em um centro cirúrgico ambulatorial no Arizona. Além dos instrumentos efetivamente utilizados, foram avaliados materiais descartáveis abertos e os resíduos gerados pelos procedimentos. Nos hospitais, apenas 18% a 20% dos instrumentos disponíveis nas bandejas foram utilizados. No centro cirúrgico ambulatorial, o índice chegou a 28%. Havia 50 instrumentos disponíveis. Apenas 14 foram usados.
Se utilizamos 14 instrumentos, por que disponibilizamos 50? O problema talvez não esteja na velocidade da CME. Quando encontramos um gargalo na Central de Material e Esterilização (CME), a reação mais comum é olhar para a capacidade. Precisamos de outra autoclave? Mais profissionais? Mais espaço? Equipamentos com maior capacidade?
São perguntas legítimas. Mas não deveriam ser necessariamente as primeiras. Antes de discutir como processar mais, deveríamos entender o que estam os processando e por quê. Foi justamente essa lógica que apareceu no estudo.
Em um dos hospitais e no centro cirúrgico ambulatorial, as equipes revisaram a composição das bandejas e desenvolveram conjuntos específicos com 17 instrumentos. O trabalho levou aproximadamente duas semanas. Depois da mudança, 14 dos 17 instrumentos foram utilizados. O aproveitamento, que antes estava entre 18% e 28%, chegou a 82%. O hospital que adotou a nova configuração também apresentou redução de 21% no peso dos resíduos. Nos dois hospitais que permaneceram com as bandejas originais, não houve mudança significativa. Há um cuidado importante na interpretação desse resultado.
O estudo avaliou tanto instrumentos reutilizáveis quanto materiais descartáveis e resíduos. Portanto, não podemos simplesmente afirmar que retirar instrumentos da bandeja foi responsável pela redução de 21% dos resíduos. Mas isso não diminui a importância do achado. Pelo contrário. Abre uma discussão maior sobre dois tipos de desperdício que muitas vezes convivem dentro do mesmo processo. Instrumentos não utilizados também consomem capacidade. Um instrumento não precisa ser usado pelo cirurgião para consumir recursos do hospital. Ele precisou chegar até aquela bandeja. Dependendo do fluxo adotado pela instituição, passou por etapas de conferência, montagem, transporte, limpeza, inspeção, embalagem, esterilização, armazenamento e disponibilização. Multiplique isso por dezenas de instrumentos. Depois por várias cirurgias. Depois por todas as salas de um centro cirúrgico funcionando durante um ano.
O que parecia ser apenas “alguns instrumentos a mais por segurança” pode se transformar em uma quantidade relevante de capacidade operacional. Esse é o ponto que considero mais interessante sob a perspectiva do Lean Healthcare. O desperdício nem sempre está onde o gargalo aparece. A CME sobrecarregada pode ser apenas a ponta visível de decisões tomadas anteriormente no processo. E existe outro desperdício: aquilo que abrimos e descartamos O estudo também avaliou materiais descartáveis abertos durante os procedimentos. Aqui a lógica é diferente.
Um instrumento reutilizável desnecessário pode gerar processamento adicional. Um material descartável aberto sem necessidade transforma recurso financeiro diretamente em resíduo. Por isso, eu não trataria as duas coisas como um único problema. São desperdícios diferentes, mas existe uma pergunta comum aos dois: Tudo o que colocamos à disposição da equipe cirúrgica precisa realmente estar disponível daquela forma em todos os procedimentos?
Essa pergunta parece simples. Na prática, obriga a instituição a revisar padrões que muitas vezes foram sendo construídos ao longo dos anos sem uma análise sistemática de utilização. Podemos chamar isso de ganho de produtividade? Aqui é preciso algum rigor.
O estudo não mediu diretamente horas de trabalho economizadas, produtividade dos profissionais da CME, redução do número de ciclos das autoclaves ou economia financeira. Portanto, afirmar que o estudo comprovou aumento de produtividade seria ir além do que os pesquisadores demonstraram. O que ele mostra é uma oportunidade operacional bastante concreta. Se uma bandeja tinha 50 instrumentos e apenas 14 eram utilizados, havia 36 instrumentos disponíveis sem utilização naquele procedimento. Depois do redesenho, a bandeja passou a ter 17. Isso muda a pergunta sobre produtividade. Produtividade não deveria significar simplesmente pedir que uma equipe processe mais bandejas por hora. Pode significar reduzir a quantidade de trabalho necessária para entregar o mesmo resultado assistencial com segurança. Essa diferença é fundamental. É também uma das ideias centrais do Lean: antes de tentar fazer uma atividade mais rapidamente, entender se ela realmente precisa ser realizada.
Como levar essa discussão para dentro do hospital? Eu começaria pequeno. Escolheria uma família de procedimentos com volume relevante e levantaria, durante algumas semanas, quais instrumentos são efetivamente utilizados. Não começaria retirando instrumentos. Primeiro mediria. Quantos instrumentos existem em cada bandeja? Quantos são utilizados regularmente? Quais aparecem apenas em situações específicas? Quais materiais descartáveis são abertos e acabam não sendo utilizados? Depois disso, envolveria cirurgiões, enfermagem e CME no redesenho.
Segurança precisa continuar sendo uma condição inegociável. Existem instrumentos de contingência que podem ser pouco utilizados e, ainda assim, precisam estar rapidamente disponíveis.
Lean não significa simplesmente “tirar coisas da bandeja”. Significa entender por que cada coisa está ali. E então medir o efeito da mudança, utilização dos instrumentos, tempo de montagem, carga de processamento da CME, materiais descartados, peso dos resíduos, custos e, principalmente, qualquer ocorrência relacionada à indisponibilidade de instrumental. Antes de comprar capacidade, vale entender como estamos usando a capacidade que já temos, essa talvez seja a principal reflexão que esse estudo deixa.
Hospitais convivem com pressão por capacidade praticamente todos os dias. Centro cirúrgico, leitos, equipamentos, pessoas e CME são recursos caros e limitados. Quando a demanda cresce, aumentar capacidade parece uma resposta natural. Às vezes será inevitável. Mas existe um risco em ampliar uma operação sem entender primeiro quanto da capacidade atual está sendo consumida por desperdícios. Comprar outra autoclave pode aumentar a capacidade da CME. Redesenhar o processo pode reduzir a necessidade de capacidade. São decisões completamente diferentes.
Por isso, antes de discutir novos equipamentos, expansão física ou aumento de equipe, eu colocaria uma pergunta na mesa:
Quanto da capacidade da nossa CME está sendo consumida para processar instrumentos que praticamente nunca utilizamos?
Talvez a próxima oportunidade de produtividade do centro cirúrgico não esteja em fazer as pessoas trabalharem mais rápido. Talvez esteja simplesmente em parar de processar aquilo de que não precisamos.
Referência do estudo:
MEHTA, D.; KOMENAKA, M.; KEANE, C. A.; et al. Improvements Can be Made in Surgical Waste and Unused Surgical Supplies in Breast Surgery Done at Ambulatory Surgical Centers and Hospitals. The American Surgeon, v. 92, n. 8, p. 2107-2115, 2026. DOI: 10.1177/00031348261429441
Nota editorial: o estudo observacional incluiu 275 operações de mama em três hospitais e um centro cirúrgico ambulatorial do Arizona. Os resultados não demonstram, por si só, ganho de produtividade da CME nem relação causal isolada entre a redução do instrumental reutilizável e a queda no peso dos resíduos.