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Afinal, por que o Brasil está tão atrás do resto do mundo em produtividade industrial?

  • outubro 2, 2026

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O Brasil não é um país sem tecnologia, engenharia ou empresas competitivas. O problema é justamente mais desconfortável. Temos empresas, plantas e cadeias produtivas capazes de operar próximas da fronteira tecnológica mundial, convivendo com uma parcela enorme da economia que produz com máquinas antigas, processos pouco digitalizados, baixa escala e gestão ainda dependente de trabalho manual.

Estudos recentes reunidos pelo IEDI convergem para um diagnóstico de décadas de baixo investimento, baixa produtividade e dificuldades institucionais que impedem que a modernização se espalhe de maneira uniforme pela economia brasileira (IEDI, 2026).

Essa combinação cria o que pode ser chamado de uma economia de ilhas de excelência. É possível visitar uma fábrica brasileira e encontrar robótica avançada, visão computacional, inteligência artificial, manufatura conectada e engenharia de classe mundial. Alguns quilômetros adiante, um fornecedor da mesma cadeia pode controlar produção em planilhas, operar máquinas antigas e depender de atividades essencialmente manuais. O problema é que cadeias produtivas são sistemas. A performance do conjunto não é determinada apenas pelo elo tecnologicamente mais sofisticado. A manufatura mundial está cada vez mais concentrada em atividades de média alta e alta tecnologia, que representam cerca de 45% da produção industrial global, enquanto no Brasil esses segmentos representam menos de 30% da indústria, segundo análise apresentada pelo IEDI (IEDI, 2026).

Parte importante da explicação está literalmente instalada no chão de fábrica. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria mostrou que máquinas e equipamentos utilizados pela indústria brasileira tinham idade média de 14 anos e que 38% estavam próximos ou já haviam ultrapassado o ciclo de vida considerado ideal pelos fabricantes. Equipamentos antigos não representam somente menor velocidade de produção. Eles dificultam integração digital, elevam manutenção, consomem mais energia, criam restrições de qualidade e limitam a incorporação de novos sistemas de controle e automação. A produtividade baixa, portanto, não começa necessariamente no trabalhador. Muitas vezes começa na tecnologia com a qual ele é obrigado a trabalhar (CNI, 2023).

Modernizar esse parque industrial exige capital. Esse é um dos pontos em que o problema brasileiro se torna circular. Empresas pouco produtivas geram menos caixa para investir. Para aumentar produtividade precisam comprar equipamentos, automatizar processos, implantar sistemas e qualificar pessoas. Quando o crédito de longo prazo é caro ou difícil de acessar, principalmente para pequenas e médias empresas, o investimento é postergado. A própria CNI identificou as taxas de juros elevadas como a dificuldade mais citada pelas empresas industriais na obtenção de crédito, tanto de curto e médio prazo quanto de longo prazo. O efeito é simples. A empresa permanece com a máquina antiga porque substituir a máquina não fecha financeiramente, e sua produtividade continua baixa justamente porque permaneceu com a máquina antiga (CNI, 2023).

É por isso que discutir produtividade apenas como eficiência operacional é insuficiente. A decisão empresarial é tomada comparando risco e retorno. Um projeto de automação exige diagnóstico, engenharia, integração, treinamento, manutenção e normalmente alguns anos para entregar integralmente seu retorno. Quando o custo do capital é elevado, aumenta a taxa mínima de atratividade exigida para que esse investimento seja aprovado. Existem instrumentos públicos destinados a reduzir essa barreira. O BNDES Mais Inovação, por exemplo, pode financiar até 100% de determinados investimentos, com prazo de até dez anos e até dois anos de carência. O desenho desses instrumentos mostra que modernização industrial depende também de financiamento com horizonte compatível com o tempo econômico dos projetos industriais (BNDES, 2026).

Comprar tecnologia, porém, não resolve automaticamente o problema. Uma empresa pode instalar um robô e continuar improdutiva. Automação aplicada sobre um processo mal desenhado frequentemente apenas automatiza desperdícios. É necessário saber onde automatizar, redesenhar fluxos, integrar equipamentos, programar aplicações, analisar dados e manter os sistemas funcionando. Experiências brasileiras com programas de melhoria operacional mostram o tamanho desse espaço. Projetos pilotos do Brasil Mais Produtivo registraram ganhos de produtividade entre 40 e 60% em pequenas e médias empresas por meio da difusão de métodos de gestão e racionalização dos processos, indicando que uma parcela do atraso não exige necessariamente tecnologia de fronteira para ser atacada (IEDI, 2023).

Existe ainda um problema de competências. Automação muda a natureza do trabalho industrial. A vantagem deixa de estar apenas em disponibilizar pessoas para executar tarefas repetitivas e passa para a capacidade de projetar, programar, operar, diagnosticar e melhorar sistemas produtivos complexos. Rafael Cagnin sintetizou esse mecanismo ao argumentar que inovação, tecnologia e máquinas novas são elementos centrais para aumentar a produtividade industrial, ao mesmo tempo em que análises recentes apontam falta de qualificação como uma restrição adicional ao desempenho das empresas. Capital físico e capital humano precisam evoluir juntos. Uma fábrica automatizada sem pessoas capazes de operar e melhorar seus sistemas apenas substitui uma restrição por outra (IEDI, 2026).

Também não basta importar equipamentos e contabilizar sua instalação como modernização industrial. Existe uma diferença econômica profunda entre utilizar tecnologia e dominar partes relevantes da cadeia que produz essa tecnologia. O país captura mais valor quando possui engenharia, software, integração, componentes, propriedade intelectual, aplicações e serviços especializados associados aos equipamentos instalados. Quando ocupa predominantemente as etapas de instalação e operação, melhora a produtividade da fábrica compradora, mas uma parcela significativa do valor tecnológico permanece no exterior. Esse desafio torna-se ainda maior à medida que inteligência artificial, sensores, software industrial e robótica convergem. O IEDI identifica justamente transformação digital, produtividade e atualização das competências industriais como dimensões que precisam avançar simultaneamente (IEDI, 2026).

Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida, escala. Indústrias aprendem produzindo, diluem custos fixos, justificam automação e desenvolvem fornecedores quando conseguem acessar mercados maiores. Uma economia industrial que cresce lentamente, exporta relativamente pouco produto manufaturado e enfrenta elevada volatilidade encontra maior dificuldade para sustentar ciclos contínuos de modernização. Estudos apresentados pelo IEDI mostram deterioração de longo prazo da produtividade industrial brasileira e destacam que ganho de escala, expansão de mercados e exportações fazem parte do mecanismo de aumento da produtividade. Tecnologia importa, gestão importa, qualificação importa, mas nenhuma dessas variáveis funciona completamente isolada do tamanho e da dinâmica do mercado atendido pelas empresas (IEDI, 2023).

O atraso brasileiro em produtividade, portanto, não possui uma causa única e dificilmente será resolvido por uma política isolada. Ele emerge da combinação entre parque industrial envelhecido, custo de capital, baixa difusão tecnológica, deficiência de competências, reduzida densidade de atividades de maior conteúdo tecnológico, problemas de gestão e dificuldades para ganhar escala. A saída exige atacar essas restrições simultaneamente. Crédito de longo prazo precisa chegar ao meio da cadeia produtiva. Empresas precisam aprender a identificar economicamente onde automatizar. Trabalhadores precisam ser formados para programar, operar e melhorar tecnologias. A indústria brasileira precisa também desenvolver mais engenharia, software, componentes e aplicações locais. A inteligência artificial e a nova geração de automação tornam esse movimento ainda mais urgente porque diminuem rapidamente a vida econômica das tecnologias existentes.

O Brasil não está condenado à baixa produtividade. Mas permanecer avançando apenas por meio de ilhas de excelência significa continuar modernizando empresas sem modernizar verdadeiramente o sistema produtivo (IEDI, 2026; CNI, 2023).A estrutura deixa o argumento mais sistêmico, evitando a simplificação de que produtividade brasileira é apenas um problema de juros, mão de obra ou quantidade de robôs.

Fontes: CNI, IEDI, BNDES, Banco Mundial, OECD e Penn World Table.

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Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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