Entre janeiro e junho de 2026, a China exportou 5,31 milhões de veículos, crescimento de 53% em relação ao mesmo período de 2025. O Brasil foi destino de 410.825 unidades e tornou-se o segundo maior mercado para os embarques chineses, atrás apenas da Rússia.
Os números representam veículos registrados como exportados na origem chinesa, não emplacamentos no Brasil. Podem, portanto, incluir unidades em transporte, em processo de nacionalização ou destinadas à formação de estoques.
Ainda assim, a dimensão do movimento é indiscutível: o Brasil tornou-se um mercado prioritário para as fabricantes chinesas.
A nova etapa é a produção local. A presença chinesa já não se limita à importação de veículos prontos. Algumas empresas avançaram para operações industriais no país:
- A BYD ocupa o antigo complexo da Ford em Camaçari, na Bahia, inicialmente com montagem de kits e implantação gradual de processos como soldagem, pintura e estampagem.
- A GWM instalou sua operação na antiga fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis, São Paulo, onde já produz veículos com participação de fornecedores locais.
- A CAOA, que mantém uma parceria com a Chery e produz veículos da marca em Anápolis, Goiás, ampliou sua atuação com fabricantes chinesas ao iniciar, em 2026, a produção de modelos da Changan no mesmo complexo industrial.
Esses movimentos criam oportunidades para a nacionalização de componentes, o desenvolvimento de fornecedores, a geração de empregos e a formação de novas competências industriais.
Alianças encurtam o caminho. Outras fabricantes optaram por se associar a grupos já instalados.
- A Geely adquiriu 26,4% da Renault do Brasil, obtendo acesso ao complexo industrial de São José dos Pinhais e à estrutura comercial da Renault. A parceria também prevê o uso da arquitetura GEA da Geely na produção de veículos eletrificados no complexo paranaense.
- A Leapmotor entrou no Brasil por meio de uma parceria global com a Stellantis, que já confirmou a produção local dos modelos B10 e C10 no Polo Automotivo de Goiana, em Pernambuco. O grupo também iniciou o desenvolvimento de uma tecnologia REEV Flex, combinando propulsão elétrica, extensor de autonomia e a possibilidade de utilização de etanol.
Essas alianças reduzem o tempo necessário para criar capacidade industrial, desenvolver redes comerciais e introduzir novas tecnologias.
O que muda para os fornecedores?
A oportunidade existe, mas não é automática. Produzir no Brasil não significa necessariamente adquirir componentes brasileiros. Os fornecedores precisarão demonstrar competitividade em custo, qualidade, capacidade, ferramentas/sistemas de gestão, requisitos específicos e velocidade de desenvolvimento. Também deverão compreender novas estruturas de decisão, portais, critérios de homologação e formas de relacionamento.
A presença chinesa entrou em uma nova fase: deixou de ser apenas comercial e começou a integrar a estrutura industrial brasileira. A questão agora não é mais se essas empresas permanecerão no país, mas quanto dessa nova cadeia será efetivamente desenvolvido aqui.
Referências: exportações chinesas para o Brasil e acordo oficial entre Renault e Geely.