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A produtividade morreu. Agora contamos tokens dos colaboradores.

  • maio 27, 2026

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A obsessão por produtividade sempre encontrou uma métrica conveniente para se legitimar. Na Revolução Industrial, medíamos horas na fábrica. Na era do conhecimento, reuniões, e-mails e entregas passaram a ocupar esse papel. Agora surge uma nova unidade simbólica de valor: o token. O fenômeno chamado “Token Maxxing” representa uma mudança cultural mais profunda do que parece. Não se trata apenas de usar IA, mas de transformar o consumo computacional em sinal de competência, ambição e relevância profissional.

A lógica parece sedutora. Quanto mais alguém utiliza modelos generativos, mais estaria aprendendo, produzindo ou acelerando tarefas. O problema é que métricas fáceis tendem a substituir métricas inteligentes. A história da gestão mostra isso repetidamente. Quando call centers passaram a medir quantidade de chamadas, a qualidade caiu. Quando empresas passaram a medir linhas de código, surgiram softwares mais complexos e menos eficientes. O economista Charles Goodhart já alertava que “quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida” (Goodhart, 1975).

O Token Maxxing nasce justamente da tentativa de tangibilizar a adoção da IA dentro das organizações. Executivos precisam justificar investimentos bilionários em inteligência artificial. Conselhos querem evidências de transformação digital. Investidores exigem narrativas de produtividade. Nesse contexto, medir uso vira mais fácil do que medir impacto. Contabilizar prompts, tokens e horas em IA produz dashboards rápidos, gráficos bonitos e sensação de progresso.

O problema é que consumo computacional não equivale necessariamente a inteligência aplicada. Um profissional pode consumir milhões de tokens gerando textos irrelevantes, refinando apresentações desnecessárias ou automatizando desperdícios. Lean já ensinava há décadas que acelerar desperdício não cria valor, apenas aumenta desperdício em alta velocidade (Ohno, 1988). IA aplicada sobre processos ruins frequentemente amplifica ineficiência ao invés de resolvê-la.

Existe também um componente psicológico importante nesse fenômeno. O Token Maxxing opera como um mecanismo de status. Assim como aconteceu com jornadas excessivas de trabalho no Vale do Silício nos anos 2000, o uso intenso de IA começa a funcionar como demonstração pública de comprometimento. A mensagem implícita é clara: quem usa menos IA está ficando para trás. Isso transforma adoção tecnológica em pressão social corporativa.

A fala atribuída a Jensen Huang sobre milhões de agentes trabalhando ao lado de humanos reforça essa narrativa de escala exponencial. A visão de organizações híbridas compostas por humanos e agentes autônomos já aparece em estudos recentes sobre Agentic AI e automação cognitiva (McKinsey, 2025). O ponto crítico, porém, não é quantidade de agentes. É capacidade organizacional de governar, integrar e direcionar esses agentes para geração de valor real.

Empresas maduras em IA normalmente não começam medindo consumo. Elas começam medindo resultado operacional. Redução de lead time, ganho de produtividade real, melhoria na tomada de decisão, redução de retrabalho, aumento de conversão ou aceleração de desenvolvimento de produto. O token é apenas um insumo intermediário. Confundir insumo com resultado é um erro clássico de gestão.

Há outro risco silencioso. O excesso de dependência da IA pode reduzir profundidade cognitiva. Pesquisas recentes mostram que automação excessiva tende a diminuir retenção de conhecimento e pensamento crítico quando não existe reflexão ativa durante o uso da ferramenta (MIT Media Lab, 2024). Se profissionais passam a terceirizar toda estruturação de pensamento para modelos generativos, podem perder justamente a capacidade de julgamento que diferencia especialistas de operadores.

Isso não significa rejeitar IA. O movimento contrário também seria ingênuo. Organizações que ignorarem IA provavelmente enfrentarão perda de competitividade estrutural. Estudos da PwC e da Stanford HAI indicam ganhos relevantes em produtividade, criatividade assistida e velocidade de execução em tarefas intensivas em conhecimento (PwC, 2024), (Stanford HAI, 2025). A questão central não é usar ou não usar IA. É desenvolver fluência crítica sobre quando, como e por que utilizá-la.

Nesse cenário, surge uma nova divisão no mercado. Não entre quem usa IA e quem não usa. A divisão real será entre quem pensa com IA e quem apenas consome IA. O primeiro grupo utiliza modelos como amplificadores cognitivos. O segundo transforma a tecnologia em muleta operacional. Essa diferença parece pequena agora, mas tende a gerar impactos profundos em empregabilidade e liderança nos próximos anos.

O fenômeno também revela uma mudança na natureza do trabalho intelectual. Durante décadas valorizamos conhecimento acumulado. Agora começamos a valorizar capacidade de orquestração. O profissional do futuro talvez seja menos definido pelo que sabe individualmente e mais pela capacidade de coordenar humanos, agentes, modelos, dados e processos em sistemas integrados de decisão.

Essa transformação lembra a introdução das calculadoras no ambiente corporativo e acadêmico. Inicialmente houve resistência. Depois veio a adoção massiva. Em seguida, surgiu a diferenciação entre quem sabia matemática e quem apenas apertava botões. IA segue trajetória semelhante, mas em escala muito maior, porque afeta linguagem, criatividade, análise e decisão simultaneamente.

O risco corporativo é transformar a corrida pela IA em um novo teatro organizacional. Muitas empresas já possuem indicadores de transformação digital que medem atividade em vez de impacto. Número de automações, quantidade de prompts, usuários ativos em copilots ou horas de treinamento podem gerar ilusão de maturidade digital sem alteração concreta na cadeia de valor. Digitalização performática é diferente de transformação operacional.

Existe ainda uma dimensão econômica pouco discutida. O incentivo das big techs naturalmente favorece aumento de consumo computacional. Quanto mais tokens consumidos, maior demanda por GPUs, infraestrutura e serviços de nuvem. O discurso da produtividade acelerada possui também um modelo de monetização embutido. Isso não invalida os benefícios da IA, mas exige leitura crítica dos incentivos envolvidos.

O futuro provavelmente não premiará quem consumir mais tokens. Premiará quem gerar mais valor por token consumido. A diferença parece semântica, mas muda completamente a lógica de gestão. O foco deixa de ser volume e passa a ser eficiência cognitiva e operacional. Organizações realmente maduras em IA serão aquelas capazes de integrar inteligência humana, processos enxutos e agentes artificiais de forma coerente, sustentável e estrategicamente alinhada.

O Token Maxxing talvez seja apenas a primeira manifestação visível de uma mudança maior. Estamos entrando em uma era em que capacidade computacional passa a influenciar reputação profissional, estrutura organizacional e critérios de desempenho. A questão não é mais se a IA mudará o trabalho. Isso já aconteceu. A questão agora é se conseguiremos evitar que métricas superficiais substituam pensamento crítico, valor real e inteligência organizacional.

Foto de Gilberto Strafacci

Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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