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A falácia da produtividade e a confusão com volume de trabalho 

  • abril 30, 2026

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Muitas vezes ouvimos sobre o desafio de produtividade no Brasil e outros países, e muitas vezes esse discurso é utilizado como narrativa para justifica ou impor mais horas trabalhadas, e isso é uma grande falácia. Horas trabalhadas e produtividade são coisas diferentes. 

A associação entre mais horas e mais produtividade não se sustenta empiricamente. Produtividade do trabalho é definida como valor gerado por unidade de tempo, normalmente PIB por hora trabalhada, enquanto horas trabalhadas medem volume de esforço. Confundir esses conceitos leva a decisões gerenciais equivocadas. Séries internacionais mostram que economias mais produtivas trabalham menos horas em média e geram mais valor por hora, evidenciando uma relação inversa entre intensidade de trabalho e eficiência (OECD, 2023).

A falácia se sustenta porque horas são fáceis de observar e controlar, produtividade não. Horas aparecem na folha, no ponto, no contrato. Produtividade exige medir output, qualidade, valor agregado. Quando a gestão não consegue medir o segundo, passa a pressionar o primeiro. O resultado é previsível, aumento de esforço sem ganho proporcional de valor, fenômeno amplamente documentado em estudos sobre produtividade marginal do trabalho (ILO, 2024). 

O caso brasileiro ilustra esse descolamento. O país apresenta carga de horas próxima a economias desenvolvidas, mas produtividade por hora significativamente inferior. Isso decorre de fatores estruturais, não comportamentais. A decomposição da produtividade mostra peso relevante de capital físico, tecnologia e eficiência alocativa, elementos onde o Brasil ainda apresenta defasagens relevantes (World Bank, 2022). Aumentar horas não altera nenhum desses vetores. 

Há um limite fisiológico e cognitivo para o trabalho humano. Evidências mostram que produtividade marginal cai à medida que as horas se estendem, com aumento de erros, retrabalho e acidentes. Estudos clássicos sobre jornadas longas indicam queda significativa de produtividade após determinado limiar de horas semanais (Pencavel, 2014). Em ambientes intensivos em conhecimento, esse efeito é ainda mais acentuado. 

Outro ponto é a qualidade da gestão. Diferenças em práticas gerenciais explicam parcela relevante da variação de produtividade entre países e empresas. Ambientes com baixa padronização, pouca clareza de processos e decisões descentralizadas sem coordenação tendem a consumir mais tempo para produzir o mesmo resultado. O tempo adicional não gera valor, apenas compensa ineficiência (Bloom et al., 2016). 

A informalidade amplia esse efeito. No Brasil, uma parcela significativa da força de trabalho opera fora de estruturas organizadas, com baixa escala e pouca adoção tecnológica. Esses trabalhadores frequentemente precisam trabalhar mais horas para atingir níveis mínimos de renda, o que reduz a média de produtividade agregada (IBGE, 2023). O problema não é falta de esforço, é ausência de condições produtivas. 

Há ainda a dimensão tecnológica. A produtividade cresce quando tecnologia se difunde e é incorporada aos processos. Nos países onde isso ocorre de forma consistente, o mesmo tempo de trabalho gera mais output. Nos contextos onde a adoção é limitada ou concentrada, o ganho não se materializa em escala (OECD, 2021). 

Conclusões 

A narrativa de que é preciso trabalhar mais para produzir mais desloca o foco do problema. O desafio real é estrutural, não comportamental. Pressionar horas é uma resposta de baixa sofisticação para um problema de alta complexidade. Pode até gerar percepção de esforço, mas não resolve a equação de produtividade. 

O caminho efetivo passa por redesenho de processos, aumento de capital produtivo, qualificação da força de trabalho e adoção consistente de tecnologia. Países e empresas que avançam nessas dimensões conseguem reduzir horas e aumentar output simultaneamente, o que define produtividade real. 

Insistir na lógica de horas como proxy de desempenho tende a perpetuar um ciclo de baixa eficiência. O dado é claro, trabalhar mais não é trabalhar melhor. O ganho sustentável vem da capacidade de produzir mais valor no mesmo tempo, não de estender o tempo indefinidamente. 

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Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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