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A Escala 6×1 Está Acabando. O Desperdício Não.

  • junho 18, 2026

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O debate sobre o fim da escala 6×1 costuma começar pela jornada de trabalho. Deveria começar pelos processos. A pergunta mais importante não é quantos dias as pessoas trabalham. A pergunta correta é quanto do tempo atual realmente gera valor.

A maior parte das organizações ainda opera com estruturas desenhadas para uma realidade que já não existe. Processos acumulam aprovações desnecessárias, controles redundantes, relatórios que ninguém lê, reuniões sem decisão e atividades criadas para resolver problemas que já desapareceram. O resultado é simples. As empresas tentam compensar ineficiências contratando mais pessoas ou exigindo mais horas.

O pensamento Lean parte de uma premissa diferente. Antes de adicionar recursos, é preciso remover desperdícios. Antes de aumentar equipes, é preciso entender a demanda real. Antes de discutir jornadas, é necessário compreender como o trabalho flui.

Muitas empresas desconhecem sua própria capacidade produtiva. Não sabem qual é o volume real de demanda, quais atividades consomem mais esforço, onde estão os gargalos e quanto tempo é perdido em retrabalho. Sem essas respostas, qualquer discussão sobre redução de jornada torna-se um exercício de opinião.

O dimensionamento de capacidade ganha relevância nesse contexto. Uma organização madura entende a relação entre demanda, recursos disponíveis e produtividade esperada. Ela conhece sua capacidade instalada e consegue prever impactos antes de alterar modelos de trabalho.

Quando esse entendimento não existe, a tendência é atribuir qualquer dificuldade operacional à falta de pessoas. Na prática, o problema frequentemente está na distribuição do trabalho. Algumas equipes operam sobrecarregadas enquanto outras possuem capacidade ociosa. O sistema como um todo perde eficiência.

O rebalanceamento de atividades é uma das ferramentas mais poderosas e menos utilizadas pelas empresas. Ao redistribuir responsabilidades, eliminar transferências desnecessárias e aproximar decisões da operação, muitas organizações descobrem capacidade escondida sem contratar uma única pessoa.

A experiência de transformação operacional mostra que ganhos de produtividade raramente surgem de iniciativas isoladas. Eles aparecem quando processos são redesenhados de ponta a ponta. Não se trata de fazer as mesmas atividades mais rápido. Trata-se de questionar se elas deveriam existir.

O Lean Thinking ensina que eficiência não significa trabalhar mais. Significa gerar mais valor com menos esforço. Uma atividade executada perfeitamente continua sendo desperdício se não contribui para o resultado final.

Essa lógica torna-se ainda mais importante em um cenário de escassez de mão de obra. O Brasil enfrenta uma transição demográfica que reduzirá a disponibilidade relativa de trabalhadores. Empresas que dependem exclusivamente de crescimento de equipes encontrarão limites cada vez maiores.

Nesse contexto, o futuro pertence às organizações capazes de concentrar energia no que realmente importa. Fazer menos tarefas. Tomar menos decisões. Criar menos controles. Produzir menos relatórios. Realizar menos reuniões. Cada redução de complexidade libera capacidade para atividades que efetivamente geram valor.

A tecnologia amplia esse potencial. Automação, inteligência artificial e agentes digitais permitem eliminar tarefas repetitivas que antes consumiam milhares de horas de trabalho humano. Entretanto, automatizar desperdícios apenas acelera processos ruins. O redesenho continua sendo o primeiro passo.

As empresas que melhor se adaptarão não serão necessariamente aquelas que possuem mais pessoas ou mais tecnologia. Serão aquelas que desenvolverem maior clareza sobre o que é essencial. Clareza para eliminar excessos, simplificar fluxos e direcionar recursos para atividades estratégicas.

O debate sobre o fim da escala 6×1 deveria servir como um convite à reflexão organizacional. Não sobre quantos dias as pessoas devem trabalhar, mas sobre quantas atividades realmente merecem existir.

No final, a questão não é trabalhar menos. É parar de desperdiçar esforço. Organizações Lean prosperam porque entendem uma verdade simples. A competitividade sustentável não nasce de fazer mais coisas. Nasce de fazer menos, melhor e com foco absoluto naquilo que gera valor.

Foto de Gilberto Strafacci

Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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