Aplicar a lógica da prevenção, da longevidade e do cuidado contínuo ao SUS é uma estratégia decisiva para garantir sustentabilidade, capacidade assistencial e impacto populacional em larga escala. Evidências nacionais e internacionais demonstram que investir em Atenção Primária, vacinação, rastreamento e gestão ativa de riscos reduz internações, custos e mortalidade, liberando recursos para cuidados mais resolutivos. Em um sistema universal como o SUS, pequenas reduções de risco, quando aplicadas de forma massiva e contínua, produzem ganhos epidemiológicos e econômicos expressivos, reforçando que prevenir é mais eficaz, mais barato e mais sustentável do que tratar doenças avançadas.
Principais pontos do artigo
- O SUS atende mais de 190 milhões de pessoas, e cada internação evitada amplia capacidade e reduz custos
- A medicina da longevidade reforça a necessidade de intervenções precoces e gestão contínua de riscos
- Evidências mostram que prevenção pode reduzir em até 50% o risco de mortalidade em populações acompanhadas
- A vacinação contra COVID-19 evitou milhões de internações e economizou dezenas de bilhões de reais
- Programas de rastreamento e imunização geram retorno econômico entre 3 e 7 vezes o investimento
- Experiências internacionais comprovam reduções sustentadas de internações e doenças crônicas
- Uma política nacional integrada de prevenção pode evitar até 35% das internações anuais no Brasil
O Sistema Único de Saúde ocupa posição singular no cenário global por sua escala, capilaridade e universalidade. Atende mais de 190 milhões de brasileiros, realiza cerca de 4 bilhões de procedimentos por ano, conduz campanhas de vacinação de alcance nacional e entrega desde cuidados primários até tratamentos de alta complexidade. Em um país marcado por desigualdades e extensão territorial, a prevenção assume papel estratégico. Cada internação evitada libera leitos, reduz custos e aumenta a capacidade assistencial. Quando a sobrecarga diminui nos níveis de urgência e alta complexidade, cria-se espaço para ampliar a resolutividade da Atenção Primária em Saúde, onde consultas adequadas previnem agravamentos e desafogam UPAs.
A discussão sobre prevenção ganha densidade quando observamos o avanço da medicina da longevidade. Peter Attia, em “Outlive”, defende que o sistema tradicional intervém tarde demais. Seu modelo, chamado Medicine 3.0, propõe uma abordagem proativa orientada a quatro pilares: exercício estruturado, nutrição adequada, sono e gestão emocional. Estudos citados por Attia, como o Harvard Alumni Health Study e a Cardiorespiratory Fitness Meta-analysis 2019, mostram reduções de até 50% no risco de mortalidade geral entre indivíduos em altos percentis de aptidão cardiorrespiratória. A consequência é objetiva: sistemas que não priorizam prevenção acabam presos ao tratamento de doenças avançadas, enfrentando custos crescentes e impacto clínico limitado.
O mercado global segue a mesma direção. Segundo o Longevity Technology Market Report 2024, o setor de longevidade já ultrapassa 200 bilhões de dólares anuais em investimentos, abrangendo biotecnologia, terapias metabólicas, wearables e plataformas de monitoramento contínuo. O Bank of America projeta que essa economia atingirá 600 bilhões de dólares até 2030. Países como Estados Unidos, Reino Unido, Israel e Singapura adotam programas que combinam rastreamento profundo, medicina personalizada e vigilância ativa. Essa tendência reforça premissas essenciais para o SUS: intervir cedo, medir continuamente e impedir que riscos evoluam para condições de alta complexidade e baixo retorno terapêutico.
A aplicação prática dessa lógica no Brasil pode ser observada durante a pandemia. A vacinação contra COVID-19 evitou cerca de 1,2 milhão de internações e 350 mil mortes entre 2021 e 2022. A campanha custou aproximadamente 24 bilhões de reais. O tratamento dos casos graves ultrapassaria 150 bilhões. Cada paciente crítico consumia entre 20 mil e 50 mil reais, enquanto cada dose de vacina custou menos de 100 reais. Consultas oportunas na APS também contribuíram para reduzir complicações e internações evitáveis. A prevenção mostrou-se mais barata, mais eficaz e decisiva para preservar a capacidade operacional do sistema.
Esse padrão se repete em outras áreas. A vacinação contra gripe reduz entre 30 e 40 por cento as internações por complicações respiratórias em idosos. O rastreamento do câncer do colo do útero por meio do teste de HPV custa de 50 a 80 reais por mulher, enquanto o tratamento de câncer avançado supera 40 mil reais por paciente. A OPAS estima que cada real investido em imunização gera economia entre 3 e 7 reais. Em um sistema universal, pequenas reduções de risco se traduzem em impacto populacional expressivo.
Apesar das evidências, a prevenção ainda aparece de forma fragmentada no orçamento federal. Iniciativas como a Estratégia Saúde da Família e o Programa Nacional de Imunizações desempenham papel fundamental, mas falta uma política integrada de prevenção com metas claras, gestão populacional contínua e previsibilidade orçamentária. Estimativas da Fiocruz sugerem que até 35% das internações anuais poderiam ser evitadas com ações estruturadas de prevenção. Em um sistema de milhões de internações, isso representa ganhos epidemiológicos e econômicos significativos.
Experiências internacionais mostram caminhos possíveis. A província de British Columbia, no Canadá, reorganizou investimentos em equipes comunitárias, rastreamento digital e acompanhamento longitudinal e reduziu em 11 por cento as internações por complicações de diabetes em dez anos. A Finlândia reformulou padrões alimentares por meio de campanhas persistentes ao longo de décadas e reduziu em mais de 70% a mortalidade cardiovascular, conforme documentado no BMJ. Singapura integrou aplicativos de saúde, incentivos financeiros e acompanhamento primário no programa Healthier SG, reduzindo em 12% as internações relacionadas a doenças crônicas. A Austrália opera programas remotos como o Get Healthy NSW, que geram economia média de 720 dólares australianos por participante. Os resultados convergem para uma mesma conclusão: prevenção sustentada ao longo do tempo altera trajetórias de saúde em escala populacional.
No Brasil, o SUS poderia avançar ao fortalecer vigilância ativa, monitoramento contínuo de riscos crônicos, programas de alimentação saudável, estímulo à atividade física e ferramentas digitais de gestão de risco. Intervenções pequenas aplicadas de forma massiva produzem grandes resultados em sistemas universais. A consolidação de um orçamento nacional de prevenção, acompanhada de relatórios anuais que detalhem investimentos, economia gerada e desfechos alcançados, daria previsibilidade e permitiria planejamento de longo prazo.
A pandemia reforçou que, embora não seja possível prevenir o surgimento de um novo agente patogênico, é possível reduzir drasticamente seu impacto ao manejar comorbidades, fortalecer a saúde metabólica e garantir acesso oportuno à Atenção Primária. Populações com melhor condição basal resistem melhor a doenças graves e mantêm menor taxa de complicações. Aplicada à escala monumental do SUS, essa lógica redefine o futuro da saúde pública: prevenir continua sendo mais eficaz, mais econômico e mais sustentável do que tratar condições avançadas.
Referências:
- Attia, P. (2023). Outlive: The Science and Art of Longevity. Harmony Books.
- Bank of America Global Research. (2024). Longevity Industry Market Outlook.
- BMJ. (2001). The North Karelia Project: Cardiovascular disease prevention in Finland.
- Fiocruz & IEPS. (2023). Impacto da vacinação na pandemia de COVID-19 no Brasil.
- Harvard University. (1995). Harvard Alumni Health Study.
- Ministério da Saúde. (2023). Boletim Epidemiológico de Influenza.
- OPAS. (2022). Retorno econômico da imunização na América Latina.
- Population Health Surveillance. (2023). Chronic Disease Prevention Outcomes in British Columbia.
- Singapura, Ministry of Health. (2023). Healthier SG Annual Report.
- Sloan, R. A. et al. (2019). Cardiorespiratory Fitness and Mortality Meta-analysis. Journal of Sports Medicine.
- Longevity Technology. (2024). Longevity Market Report 2024.
- Preventive Medicine. (2020). Economic Impact of the Get Healthy NSW Program.