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O Fim da Indústria Automotiva como Conhecemos: A Disrupção que Redesenha o Setor

  • novembro 25, 2025

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A indústria automotiva vive sua maior ruptura em um século. A eletrificação foi apenas o início: agora sustentabilidade, IA, serviços digitais, novos modelos de negócio e reconfiguração global das cadeias formam um único vetor de transformação. A pesquisa global da KPMG mostra que OEMs, sistemistas e Tiers enfrentam um cenário onde tecnologia, governança e estratégia precisam evoluir simultaneamente — e onde a vantagem competitiva passa a depender da capacidade de integrar ecossistemas, não apenas de fabricar veículos.

Principais pontos do artigo

  • A eletrificação abriu uma transformação muito mais ampla: modelos de negócio, cadeias e competências estão sendo reconstruídos.
  • Executivos globais veem urgência alta; no Brasil, a percepção é menor — e pode afetar competitividade.
  • Sustentabilidade, IA, geopolítica e novos serviços formam um bloco único de disrupção.
  • Cadeias de suprimentos estão se regionalizando; empresas resilientes e digitalizadas performam melhor.
  • IA cresce rápido, mas a maturidade ainda é baixa — abrindo riscos em dados e integração.
  • O valor migra do hardware para software, serviços e ecossistemas de mobilidade.
  • Os “5 Ts” da KPMG reforçam que transformar exige integração estratégica, não ações isoladas.
  • O Brasil tem pontos fortes (alianças, regionalização), mas risco em urgência de transformação.
  • A indústria não acaba — se reinventa. O centro deixa de ser o veículo e passa a ser o cliente, os dados e o ecossistema.

A indústria automotiva entrou em um ponto de inflexão histórico. A eletrificação foi apenas a porta de entrada, não o destino final. A pesquisa 25th Annual Global Automotive Executive Survey, da KPMG, revela que os executivos do setor já não enxergam a transformação como um tema tecnológico isolado, mas como uma reconstrução completa de modelos de negócio, cadeias de suprimentos e competências internas. O enfoque deixou de ser produzir veículos para se tornar produzir valor em ecossistemas de mobilidade.

O estudo entrevistou 775 executivos C-level em 22 países e identificou um movimento claro: 36% dos líderes globais acreditam que suas empresas passarão por uma transformação total nos próximos três anos, percentual que no Brasil cai para 17%. A discrepância mostra que, embora a pressão global por mudança seja evidente, o mercado brasileiro ainda opera com menor senso de urgência. Essa defasagem tende a impactar competitividade, especialmente em um setor onde ciclos tecnológicos encurtam ano após ano.

A convergência de fatores disruptivos ficou evidente no levantamento. Sustentabilidade, IA, novos modelos de serviço, mudanças regulatórias e tensões geopolíticas deixaram de ser tendências independentes. Tornaram-se um bloco único de transformação. O relatório mostra que 38% dos CEOs consideram a descarbonização da cadeia como o desafio ESG mais difícil, e apenas 20% dos que enxergam tecnologia como principal força disruptiva sentem-se preparados para enfrentá-la. O setor sabe o que precisa fazer, mas ainda não consolidou a capacidade de execução.

A cadeia de suprimentos, tradicional espinha dorsal da indústria, vive sua maior reconfiguração desde a globalização dos anos 1990. Segundo a pesquisa, 68% das empresas estão reestruturando suas cadeias com estratégias de regionalização, movimento impulsionado por riscos geopolíticos e volatilidade logística. No Brasil, esse número chega a 73%. Empresas com cadeias mais resilientes e digitalizadas apresentam maior probabilidade de superar as metas de lucro, sinalizando que produtividade e robustez foram redefinidas como métricas estratégicas.

Outro vetor central da mudança é a ascensão da inteligência artificial. A pesquisa indica que 86% das empresas globais investem fortemente em IA, número praticamente igual ao brasileiro, com 87%. Apesar disso, a sensação de preparo ainda é baixa. A lacuna entre adoção e maturidade abre espaço para riscos, especialmente em cibersegurança, qualidade de dados, dependência tecnológica e integração entre sistemas legados e plataformas digitais. É um cenário fértil para consultorias com visão sistêmica, capazes de conectar estratégia, tecnologia e operação.

A transição do valor automotivo para software e serviços também ficou evidente. O estudo mostra que 68% dos executivos acreditam que novos entrantes, empresas de tecnologia, plataformas de mobilidade e players digitais, podem substituir fabricantes tradicionais até 2030. No Brasil, a percepção é híbrida: 70% acreditam que as OEMs manterão protagonismo, mas 73% reconhecem que novos entrantes ocuparão uma fatia relevante do mercado. O verdadeiro embate não será hardware contra hardware, mas hardware contra ecossistemas.

Para sintetizar os elementos críticos da transformação, a KPMG apresenta o framework dos “5 Ts”: liderar a transformação, dominar a tecnologia, conquistar confiança do cliente, navegar tensões e prosperar em ecossistemas. Essa lógica reforça que o futuro automotivo não se sustenta em iniciativas isoladas. Ele depende de integração. Empresas que tratam a transformação como um programa técnico, e não como uma revisão estrutural, tendem a perder relevância.

O cenário brasileiro, embora promissor, revela assimetrias importantes. A baixa percepção de urgência sobre transformação total pode limitar a capacidade de resposta à entrada de novos competidores e dificultar a adaptação aos novos modelos de receita baseados em serviços e software. Por outro lado, o país demonstra maturidade crescente em temas como regionalização, colaboração e alianças estratégicas, áreas nas quais aparece acima da média global.

Para a cadeia automotiva, nos OEMs, sistemistas, Tiers 1 e 2, os achados da pesquisa funcionam como mapa de risco e oportunidade. A transformação pede mais do que eficiência de produção, pede reinvenção estrutural. Implica rever governança, processos, portfólio, arquitetura tecnológica, experiência do cliente e a própria definição de produto. O setor precisa se tornar simultaneamente mais digital, mais sustentável, mais integrado e mais ágil. Poucas indústrias lidam com tantas forças simultâneas de mudança.

O que está claro é que a indústria automotiva não será extinta. Ela será reinventada. A disrupção atual não destrói o setor, redefine suas fronteiras. O veículo deixa de ser o centro. O cliente, a tecnologia e o ecossistema passam a ditar as regras. E as empresas que se anteciparem a esse movimento com estratégia, maturidade tecnológica e capacidade de execução serão as que escreverão a próxima era da mobilidade global.

Fontes

KPMG. 25th Annual Global Automotive Executive Survey Report 2025. Disponível em: https://assets.kpmg.com/content/dam/kpmgsites/xx/pdf/2025/08/annual-global-automotive-executive-sur…

KPMG Brasil. 25th Global Automotive Executive Survey GAES. Disponível em: https://kpmg.com/br/pt/home/insights/2025/10/25th-global-automotive-executive-survey-gaes.html

Novo Varejo Automotivo. Executivos do setor automotivo apontam nova era. Disponível em: https://novovarejoautomotivo.com.br/em-pesquisa-global-da-kpmg-executivos-do-setor-automotivo-apont…

Foto de Gilberto Strafacci

Gilberto Strafacci

Vice-Presidente do Setec Consulting Group. Cientista de Dados, Especialista em Inovação e Gestão, Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Certified Master Black Belt, Certified Scrum Master, Certified Agile Coach, Certified Kanban Professional, Certified Agile Trainer, Certified RPA COE Manager, RPA Developer e RPA Business Analyst, Certified Manager 3.0, Certified LEGO Serious Play Facilitator.
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